04 January 2007

SÓ GOZAR



Tenho tanta coisa pra fazer
Tudo está à minha espera;
No entanto,
Minha cabeça rodopia em twist
As pernas andam pra trás sem eu saber
O peito está arfando assim, " bumba meu boi";
Tristeza não tem,
Tédio não tem,
Saudade não tem,
Tem é maresia,
Sentimento de rede fiada à mão de pescador
Afeto de leite de coco misturado à vodka
Pé de chinelas grossas do couro arrebentado
E uma preguiça doida até pra ler gibi
Se as coisas parassem de funcionar
E eu desistisse dos afetos,
Lá ia eu para os ponteiros arrebitados de algum vento,
Pra não fazer nada, não atinar em nada;
Só gozar.

AMAR UM NEGRINHO


Meu coração necessita urgente de um amor sereno
E eu desejaria amar um negrinho
Um negrinho deve ter todas as malemolências à hora do amor
Deve saber babar monossílabos e lamber cantigas
Afro-americanas junto com bolero açucarado
Deve saber pegar sem apertar,
Prender e saber soltar;
E o beijo do negrinho deve ser escorregado
Em meio aos dentes muito brancos e suspiros sussurrados
Um negrinho deve ser bom de amar;
Deve ser igual ao dia em que escorreguei de tobogã
O frio na espinha, e lá em baixo, só satisfação
O negrinho sobre mim é o meu desejo mais secreto
Um tobogã virado no meu êxtase
Por baixo, o frio arrepiado,
Por cima, dentro do meu corpo branco, o contentamento.

POESIA NEGUINHO


Vou lhe chamar de poesia, meu neguinho;
Mas que poesia difícil de se ter!
Poesia é vento brejeiro, é mais prazer
Você, na poesia, destoa, se rebela
Teima, atravanca, empaca, retrocede;
Vou lhe chamar de poesia rebelada
Aquela poesia que ninguém quer,
Ninguém aceita,
Mas eu,
Eu, que sou a própria poesia transmutada
Aceito-lhe, neguinho,
Vem me ver.

POEMA DA MANHÃ


Logo agora que eu estava me preparando para o melhor
O pior é que me é agora preparado;
O Carnaval não aconteceu em Junho
E as roseiras nem brotaram no colchão
Olho à volta neste ínfimo momento
Tudo está absolutamente em ordem
Os tapetes gemem baixinho sobre o chão
O cachorro dorme em Zzzzzz
As cortinas finas, balofas, esvoaçam-se
O céu está pesando em chumbo injustiçado
Meu café preto tenta, sem graça, esfriar
E eu, aqui dentro de mim, estou ensimesmada
O que falta agora não é o natural;
Falta-me o ar.

03 January 2007

O INIMIGO DO AMOR


O maior inimigo do amor
Não é nem de longe a indiferença,
Nem o ciúme,
Nem a traição confessada;
O maior inimigo do amor
É a nossa boa memória.

DESCOMPLICADO


Se isso for muito complicado,
Eu descomplico assim;
Recuo.
Se eu achar que não vale a pena,
Eu desvalorizo assim,
Anulo.
Se eu teimar que não vai dar certo,
Eu decido assim,
Te mato
- Não de verdade,
Matar os outros é pecado –
Te mato gentilmente
Com faca de matar afeto,
Depois vou pra janela,
Sem culpa e sem medo.

REAL


Aqui tudo é inventado,
Tudo é mentira;
A única verdade sou eu
Que quero ser mais real do que o rei

TÍTULO DO LIVRO

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Oi, Cecília,
Espero que você tenha tido uma boa passagem de ano, e que 2007 seja o ano de suas definições como pessoa.
Passadas as festas, vamos encarar o livro?
Beijos
Menalton

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Meus amigos,
Chegou a hora de tentar publicar um livro.
Dentro da minha vaidade exagerada, eu quero tanto, porém, quanto mais me leio mais me acho repetitiva e inconseqüente. E o pior, descubro, boquiaberta, que não sei escrever!!!
Mas meu amigo Menalton agora me cobra prazos, me sugere títulos e me faz subir a escada para o cadafalso.

Peço a quem me leia que me sugira um título do livro, que pode ser de um de algum poema ou não.
Só peço que não me indiquem o título de JACUTINGA, a jacutinga que havia em mim há muito já voou.

Título sugerido por Menalton : ÓLEO SOBRE TELA
Título sugerido por mim mesma: CECI, SAI DESSA E VÁ FAZER OUTRA COISA





02 January 2007

O TIGRE


Essa é uma das raras vezes que escrevo a partir de uma imagem. Não pude resistir ao tigre siberiano, imponente, majestoso, a representação do poder mudo, que impõe, quando não fala, que age e não justifica, que fere e não se culpa.
O mundo está repleto de pequenas representações de céu e de inferno. O tigre pertence aos dois mundos; no corpo atraente, o fogo do diabo, belo e sôfrego; no olhar, a plenitude dos santos de altar, que nada faz e tudo exalta.
Nunca vi um tigre de perto em minha vida. Mas se visse, primeiramente, levaria aquele susto natural, mas depois, iria conferir, entre tonta e maravilhada, que o tigre está sempre vestido para o carnaval.
Exuberante, luxuoso e sensual, na certa arrancaria as notas mais altas do juri popular.
Palmas para o tigre,
Que sendo mau para os homens
É bom para si mesmo,
Porque se basta entre o maléfico e o benéfico;
Palmas para mim também,
Que sou o tigre em tempos miseráveis;
Vestida de festa quando sei que só desfilo em farrapos.
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Ah, o tigre siberiano
Tem as tatuagens imantadas
Por sobre os pelos dourados eriçados
Também tenho a tatuagem no meu corpo
Que ninguém vê,
Desenho em fino corte por baixo da minha capa
Está nos açoites
Pelos quais a vida me marcou
Riscas rasas de dor e crueldade
Que me embelezaram a alma,
E me fizeram
O que eu sou;
Forte, porque marcada.

A VIDA


O mundo é assim,
Tem hora que a gente vence a vida
Tem hora que a vida vence a gente
E eu, que fiquei no empate?
No tênis, zero a zero é LOVE
Na vida, zero a zero é DOR

HIPÉRBOLE


Não é que eu seja exagerada, meu bem,
Mas é só no sentimento,
Na palavra e na ação.
O mundo é que é enxuto demais,
Cru demais,
Pequeno demais,
Estreito demais,
Tedioso demais;
Eu quero é a liberdade dos sentidos
E a expansão do meu jeito de olhar
Para mim a borboleta é gavião
O prato de sopa uma lagoa
O vinho tinto é o sangue das batalhas
E você,
Você é o coelho que tive no passado
Que não era doce,
Era um tição,
De um branco tingido de pureza
Falso como a folha da maçã
Aquele que pulou a cerca
Da altura mínima da muralha
Que envolve e prende a China
E passou sorrindo para o outro mundo
No silêncio do sepulcro magistral
O meu exagero é óculos de sol
Que eu ponho agora quando está chovendo
Porque lhe ver agora é que é exagero
A sua volta é o pingo do "i" do meu poema
Sua atenção é Genesis neste meu momento;
Que explode em trevas
Do final para o começo

SOSSEGO


Deus, tira-me tudo;
A comida saborosa ao meio dia
O leite frio que me sustenta em sono
O trabalho fino que me dá prazer
O beijo do filho à hora mais sofrida
A palavra dura que me faz crescer
Mas não me tire,
Por sua piedade divina,
Não me prive,
Nem no meu momento mais indigno,
Do meu sossego,
Que eu preservo tanto,
Que é ficar só comigo mesma.

A ARTE


Para o pescador, basta que haja água,
O peixe surgirá;
Para o palhaço, o público
A risada irromperá em comoção;
Para o pintor,
A tela branca puxando as tintas
Para que a figura venha à vida,
Traduzindo, feliz, a forma reduzida
E para o lavrador,
Basta que haja a terra
E que o tempo passe,
Nos ventos velozes da germinação

Para mim,
Basta que haja essa página em branco
Imperfeita e mística, sempre à minha frente
Criação ainda por fazer, o único mistério
E que eu escreva somente a primeira palavra
Ainda trêmula de sonho,
Para que na derradeira,
Detrás das vogais e consoantes entrelaçadas
Tenha me descoberto, inteira, nas facetas
Com as minhas digitais impressas na linguagem.

Daí o peixe do pescador também me surgirá
Serei a moldura pálida da imagem formada pelo artista
A semente castanha brotará em flor,
E eu saberei, com meio riso de contentamento
Que o mundo não está caduco; que está tudo certo.

TODO DIA


Se eu não tivesse a página em branco
Todo dia
Seu eu não tivesse a palavra minha
Todo dia
Se eu não tivesse a alegria de me ver sozinha
Todo dia
Se eu não tivesse a ampulheta que me desentorta
Todo dia
Se eu não me tivesse inteira, como tenho
Todo dia
Se eu não me amasse tanto, como amo a mim mesma
Todo dia
Se eu não desejasse pensar na linha reta
Todo dia
Se eu não acordasse mansa
Todo dia
Se eu não me deitasse plena
Todo dia
Se eu não amarrasse o santo
Todo dia
E não liberasse o demônio
Todo dia;

Eu seria
Absolutamente igual
Ao que fui um dia
Se eu não me derramasse todo dia
Sobre a página branca que me espera
Eu seria normal
Como qualquer cristão,
Que vejo e que conheço
Todo dia,
Deus me livre!

01 January 2007

PRIMEIRO POEMA


Assim eu desejaria escrever o primeiro poema do ano
Que as falhas do meu caráter se acentuassem
Já não desejo ser perfeita mais
Esse tempo já passou
Que as minhas tristezas fossem como o ouro refinado
A minha tristeza é minha ferramenta de trabalho
Afiada e desvelada todo dia
Para o poeta que sou
Que as minhas mágoas me elevassem a condição de acusador
Mágoas servem para isso, a mágoa passa
A acusação revela
De que somos barro e pó
Assim eu desejaria encerrar o ano novo que começa
Nem tão só
Nem tão estanque
Mas com a poesia ainda presa em mim
Pois a poesia é minha perfeita companhia
Assim eu desejaria escrever nos dias que se seguem
Que eu me descubra nua e pobre
Quebrada e vil
Mas que ainda haja uma palavra que me venha
Um sentimento de melhoramento
Que eu seja triste ainda,
Mas que contrariamente, e por isso,
Eu seja como estou agora,
No primeiro dia desse novo ano,
Alegre.