10 January 2007

GANHAR X PERDER


As afirmações da sabedoria popular e suas polaridades

Porque não sou cientista, agradeço a Deus. Que Ele me livre da verdade todos os dias; quero ser enganada em tudo enquanto viver.
Mas os cientistas ainda teimam em decifrar o mundo. E do que é feito o mundo senão o das polaridades negativas e positivas?
Por “negativo” tendemos a considerar que seja a banda podre dos adjetivos, mas tenha o cuidado de não confundi-lo com os pesos dos adjetivos. Na maioria das vezes, acho o feio (negativo) sensacional, e o bonito (positivo), sem sal.
Há que se considerar também os graus dentro dessa variedade de adjetivos, que podem ser classificados como muito, muito pouco, pouco, mais, menos, e assim por diante. Assim podemos dizer que alguém é bom; ou muito bom, o que torna nosso discurso ainda mais enfático.
As palavras desmistificam o mundo e os cientistas que me perdoem; quanto mais vivo mais me certifico que as palavras se bastam. As palavras definem e dão sentido à vida, e a sabedoria popular dá uma banana para a ciência.
Dizem que quando Deus fecha uma janela, Ele escancara uma porta. Se isso quer dizer que uma chance foi desperdiçada, uma oportunidade larga se abrirá à frente.
Há também uma alusão à uma chance perdida através da ilustração de um cavalo selado representando a sorte, que passa uma única vez à nossa frente. Uma vez perdido o assento sobre esse cavalo, “suerte, adios” .
Todavia, o que significa “desperdiçar” uma chance?
O conhecimento dos antigos é imbatível; tudo que se aprendeu e se aprende com esse conhecimento ainda confisca as verdades atuais sobre o acontecimento das coisas. O conhecimento dos antigos pressentia, sem base científica alguma, fatos que estariam por vir. Hoje a ciência ratifica em muito a sabedoria dos antigos; velhos ancestrais da velha Humanidade, buscada nas civilizações extintas do berço do conhecimento na Antiguidade. Como explicar tamanha consciência das coisas? Aos gregos, devemos tudo; a psicologia moderna ainda afirma isso.
Temos aqui duas afirmações vindas dos mais antigos, essas do tempo de meus avós, porém, contraditórias, entre si;

Quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela

A sorte é um cavalo selado que passa uma única vez em nossa vida

Procurando aqui no meu depósito de memórias, achei também outra verdade universal que me encanta, mas ao mesmo tempo me assusta:
Se um fato já ocorreu no mundo, a chance de que ele se repita é de 90%.

Então, pasme. Se você caiu de bicicleta um dia, terá 90% de chance de cair de novo ao montar a mesma ou outra bicicleta; se você amou e não foi amado, 90% de chance de se frustrar novamente no amor. Sendo mais otimista, se alguém encontrar dinheiro na calçada uma única vez, é possível que continuando a caminhar e a procurar, haverá mais dinheiro à solta para ser achado. Por qualquer um, inclusive.
Entre perder uma oportunidade e ficar lamentando com os olhos de “nunca mais” , prefiro acreditar que outros cavalos selados passarão. A fatal aparição de um único cavalo em toda a nossa vida, e ainda, pronto para o galope conosco rumo à nossa felicidade, isso não lhe parece simplista demais?
Para mim, nunca será possível neste mundo assombroso de Deus existir um único cavalo; cavalos há aos montes, selados então, aos milhares, portanto, sigo o raciocínio de que se há um passando a galope, outros também estarão na trilha e passarão também. Basta esperarmos e termos capacidade de pular sobre qual nos agrade mais. Deus continuará nos abrindo portas gigantescas, e os riscos de fracasso e sucesso acontecerão assustadoramente em percentuais altíssimos.
Em muitos casos o embate entre os opostos “Ganhar X Perder” em suas duas polaridades torna-nos humanamente em farrapos, quando sabemos que essas duas palavras antônimas guardam quilômetros de distância no significado entre si. Como se “ganhar” fosse receber os louros, e “perder” finalmente fosse chafurdar na lama.
Entretanto, perder às vezes é ganhar. Casos assim enchem nossos noticiários. Fulano de Tal perdeu o vôo 777 que desapareceu misteriosamente no Pacífico Sul. Entrevistado, Fulano respira entre aliviado e resoluto ao dizer: “Perdi o vôo e ganhei a vida”.
Agora, num caso contrário, se ganha milhões na Mega-Sena, e Beltrano perde a privacidade total, isso quando não perde a vida, enredado pelos parentes, vizinhos, loucos pelo seu desaparecimento.
Ganhar e perder são atos de coragem, dentro da mesma força e da mesma intensidade. E corajosamente, vamos perdendo e ganhando a todo minuto. Ganhamos a vida trabalhando, mas perdemos nosso tempo de lazer, ganhamos dinheiro, e perdemos paz de espírito, ganhamos amores, perdemos a liberdade.
Ao fecharmos uma porta para um destino, ganhamos outra porta, que abre outra porta, e que abrindo outra, nos leva a caminhos misteriosos de que só as portas que se nos abrem nos dirão.
Escolher uma porta à direita e desprezar aquela da esquerda não nos dará absolutamente nada de satisfação ou alívio, a não ser a consciência de sabermos que outras portas se abrirão e outras se fecharão.
A vida, então, resume-se nesse abrir e fechar de oportunidades a cada instante, animação de pequenas ou grandes chances aparecendo e desaparecendo enquanto caminhamos para a última porta que deve ser a morte, isso se não existirem mais portas pela frente da morte. Mas este assunto é mistério para mim; talvez para poucos outros não seja, mas ainda acho graça em quem me explica.
Portanto, diante de uma difícil decisão, rejeitar ou aceitar aquele emprego, ir ou não para certa universidade, largar a mulher para viver com outra, decidir ser cantor de rock ao invés de continuar a ser bancário, em todas as curvas de opções que temos todos os dias, basta seguir em frente.
Não se engane, meu amigo; se hoje há dúvida, amanhã haverá uma decisão. Mesmo inertes, mesmo irresolutos, mesmo fracos, ainda que fortes, a decisão virá. Mesmo que nos fechemos dentro dos nossos quartos, apaguemos a luz, nos recusemos a tomar alguma decisão, a decisão estará tomada, e essa porta da indecisão momentânea também se abrirá. Porque se você resolveu não abrir porta alguma, tenha certeza de que alguém a abrirá pra você, ou lhe escolhendo um emprego, ou lhe trocando por outro cônjuge muito mais interessante. A vida é assim, dinâmica, se você não faz, a vida fará para você.
Se houvesse um jeito de vivermos bem neste mundo, certamente seria o de vislumbrar qual porta certa deveríamos buscar e abrir. Mas o certo não existe, o duvidoso é permanente; então, só nos resta aplicar bem o ouvido agora e tentar ouvir o trote do cavalo castanho que está se aproximando ali, na ponta da manhã. Investigue se valerá a pena saltar sobre ele. Senão, espere; depois do almoço outro também haverá de passar. Nem sempre castanho, às vezes branco, às vezes rosa, porque o cavalo de cor rosa lhe enganará quando lhe disser que o levará para a tal sonhada porta certa da decisão. Lembre-se então. A porta "certa" tem o tamanho e cor exatos ao da porta "errada"; nosso único trabalho é abrir somente uma, e não importa qual porta seja aberta, certamente, estamos jogando o jogo, como deve ser.
Como neste momento, em que você me lê. Você acabou de "perder" tempo comigo; em contrapartida, "ganhei" a sua companhia. Você, graciosamente, escolheu entre tantas coisas a fazer neste momento, abrir a sua porta para mim, e isso, eu acho, foi mais do que certo.
Feliz, agradeço-lhe, então. E sigamos em frente.

"Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência".

(Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas)

08 January 2007

DIFUSO


Essa é a imagem que gostaria de publicar hoje, retirada do blog de Ana, de Portugal, chamado Espelho Mágico. Sou assim também, Ana, difusa. Possuo todos esses pedacinhos em cor, mas nada tão inteiro a ponto de me fazer sustentada e forte. No entanto, sinto que sou diversa , variada, como as cores do seu belo trabalho. Parabéns!

EU SOU


Faz um tempo me disseram; sua literatura é linda.
Minha literatura não é linda, nem bem feita, nem cheia de recursos lingüísticos rebuscados; nem mesmo humilde ela é. Humilde seria se eu a submetesse à apreciação de outros e ouvisse esses outros de forma a moldar minhas palavras. Mas não, escrevo quando quero e como quero, cometo os erros mais crassos e me repito em temas quando posso. Se essa literatura dói nos outros, creia-me que já me doeu primeiro, e portanto, aí me vingo em dose dupla; se eu sofro, não poupo ninguém na minha e da sua dor.
Minha literatura serve apenas como despejo emocional de uma mulher que viveu pouco, embora já tenha vivido nos altos e baixos da mesma montanha russa; que sonhou muito e colheu apenas semente rejeitada, que acreditou em si mesma e recebeu de volta todos os seus fracassos embalados em experiência farta em dor. Aqui, na minha literatura, dor é fonte de produção, alegria é tropeço e impedimento, portanto, que haja sangue e que haja choro para completar a catarse artística do meu texto.
Entretanto, minha literatura não é uma intenção de arte nem mesmo de expectativa de consagração; é uma necessidade, um "must" um aviso, de que quando escrevo, me sinto útil e se não escrevo, é porque já desisti. Não de mim, desisti de você. Em suma, deve ser porque já não queira mais compartilhar com ninguém a minha intimidade.
Minha literatura, embora não seja linda, é próxima e recorrente. Se não a coloco sobre o papel, ela continua em mim, todo dia, à hora do café, à sombra do relógio quando bate meio dia, se tomo chá ou leite morno, dormindo ou me preparando para o sono. Minha literatura é o que você vê. Eu sou.

PROSA E POESIA


As pessoas me entendem melhor
Quando escrevo em prosa
Que ironia;
Mato-me de rir
Enquanto fazem cócegas no meu intimo
Não sabe que é na prosa que me escondo
E que é na poesia
Que eu mostro a verdadeira face
Única legitimidade que é minha?
Essa face nua,
Essa face aguda,
Essa face triste,
Face de sorrir quando dá bom dia
E face de chorar quando está sozinha.

07 January 2007

AMIGOS, QUE TAL ESSE TITULO QUE ACABEI DE IMAGINAR?


A CABEÇA É PERNA DOIDA
Poemas De uma Mulher Perplexa
Maria Cecília Figueiredo
Pé de Pitanga - Inferno - Dividir - Xícara de Chá - Café Preto - Azul - Futuro Próximo - Epitáfio - Vodu - Trem, Água e Goiaba - A Jaca - Alma Serena - Dia Bom - Libertação - Quem me Acompanha - O Burro - Inoperante - Eu, Passarinho - Mais Ótimo - As Fitas - Vida Chata - Sofrimento do Poeta - Eu Gosto - Ceci - A Boca Fala do Que o Coração Está Cheio - Doce - Oh, Lord - Metida e Faldeira - Prender um Bem - O Acendedor de Postes - Alçapão - Dor e Rosas - A Borboleta

VAMOS FALAR DE NÓS

Ainda ontem fiquei sabendo de uma pessoa que escreve para se comunicar com um outro, lançando mão de e-mails ou cartas e bilhetes colocados estrategicamente à frente desse outro por onde ele passe, por simples e pura desculpa que escrever é mais fácil do que falar. Choquei-me em horror.
À falta de coragem ou habilidade para travar um diálogo em patamares civilizados diante de uma crise que surja, e por assim dizer, em níveis decentes de exposição de sentimentos , essas pessoas se utilizam papel de lápis para deitar ali suas idéias mais bem organizadas e assim, tentar, muitas vezes, com êxito, representar suas emoções, pensamentos e sentimentos. Se eu digo aqui, com êxito, quero dizer, que a escrita sobre o papel, depois de raciocinada e revisada, adquire aquela consistência de verdade e coerência que se buscou; o êxito então é inexpugnável.
Quem escreve com a desculpa de não saber falar de si mesmo, passa recibo de incompetente. Incompetência de jogar o jogo das palavras, igual ping pong de afeto: eu jogo a bola, você a recebe, e passa a bola de novo para mim. Escrever é jogar sozinho.
Agradeço a Deus por minha escrita se recusar a realizar a façanha.
Falar é falar e escrever é escrever; esse óbvio ululante é que nos engrandece, habilidades distintas que deveriam se desenvolver conosco, ao longo da vida dentro dessa trabalhosa atividade que é a comunicação.
Embora a comunicação se dê em todos os sentidos da vida, considere que há implícita e explicitamente, a comunicação verbal, a comunicação escrita, a gestual, a comunicação moderna hoje pela mídia e ainda pela telepatia, como querem crer alguns. No entanto, não posso deixar de considerar que as pessoas que se lançam de cartas ou bilhetes a fim de comunicar-se com o outro por pura falta de habilidade pessoal, é finalmente uma pessoa manca. Eu a chamaria de “deficiente” na comunicação.
Se possuímos todas as capacidades, se as desenvolvemos ao longo da vida, uma transmissão de idéias jamais deveria substituir a outra, embora, sejam assistentes entre si.
Falar, debater, discutir, argumentar, é de longe a melhor comunicação humana, visto que o olho no olho e as sensações próximas de calor, suor, um possível arqueamento de sobrancelhas, sorrisos e choro; é aí que a comunicação corporal completa seu mais sofisticado artífice inserido no mundo humano. A fala, que nos diferencia dos animais, suprema e soberana ferramenta, nos põe divinos.
Escrever também é o divino, mas o divino confinado em pasto, pois basta que haja uma página em branco e um objeto de deitar rastros, tinta, giz ou grafite, que nossa comunicação já passou a ser censurada, sujeita a revisão, facilmente artificial. Escrever não é artificial, expor os sentimentos de modo a transmitir idéias é que é. O papel aceita tudo, a voz humana não.
Nunca lhe escreverei um bilhete ou carta sentimental para lhe dizer o quanto sou triste e o quanto estarei descontente com você. Basta que você me olhe, me diga bom dia, as minhas palavras virão como a água liberada da torneira , e você tiver paciência, ao longo do dia, lhe falarei tudo de mim, desde os meus fracassos dos quais me orgulho tanto até dos meus sonhos que já sei que se realizarão. Falarei do que sinto por você, e porque não sinto , mas não me peça que lhe escreva. Isto seria a pedra que segura a porta para que o vento não a tire do lugar. Quando eu lhe falar de mim ou de nós, ou ainda desse planeta velho e sem solução, quero que você me veja articular as palavras, quero que me observe dando a adequada entoação a essa ou aquela expressão mais forte, quero que me descubra por trás da minha ironia e sentimento atravessado. Depois quero que você segure a minha mão e que me diga que entre nós não há mais desvios ou precipícios; que nossa comunicação seja assim, o vagão seguro dentro dos trilhos das nossas emoções. Eu falo, você me ouve, você responde, eu colho de você o fruto da minha explosão.
Deixemos os escritos para o papel do jornal que informa fatos, ou ainda para a poesia ou o lirismo que teima em sair quando não encontra o próximo assim tão próximo para nos ouvir.
O papel, é confidente, nunca foi um objeto de diálogo. É mudo e parco. Pouco demais.
O papel do papel é o de ser receptor, que submisso, aceita o trágico e o cômico, o vil e o fantasioso. O papel é somente o parceiro fiel do escritor que encontra nele a companhia e cumplicidade da aceitação de suas idéias, de seus fardos. É só.
Esse texto que escrevo agora atingirá sua destinação, particular ou em massa. A leitura dele por você ou indiferentemente por outros, me traz a sensação frustrada de que lhe falo através de um vidro herméticamente fechado. Jamais lhe saberei sua reação, suas respostas aos meus estímulos, embora eu esteja aqui torcendo com os dedos em figa para que você me compreenda, comungue comigo e me aceite. Se houver resposta, nem sempre essa resposta virá como desejarei; você também poderá não se pronunciar, ou até mesmo, se pronunciando, não me devolver a conclusão que tanto busco. Meu texto é só uma tentativa, sendo você a minha certeira intenção de troca de calor. Desejo através da escrita, estabelecer consigo uma intimidade, porém, não lhe tendo aqui, me abro em palavras escritas. Contudo, se estamos próximos, desprezo a página e definitivamente, escolho você.
O diálogo, esse sim, é insubstituível. O diálogo é que eu gostaria de ver reinar entre
nós, humanos, como o mais sofisticado item de interação. Saber falar e saber ouvir, ouvir e saber devolver a resposta, essa é a prática que devemos exercer todos os dias, e da qual nunca deveríamos abrir mão.
Deixe para o papel suas reminiscências e histórias.
Olhe para mim e me veja. Fale comigo e me descubra. Fale-me de você e deixe que eu lhe ame. Assim, nos conheceremos mais e mais.
Simples assim; apenas falando. E por falar em simples, quase tudo o que é simples é bom.

06 January 2007

AS PALAVRAS


Agradeço às palavras
E somente às palavras
Que me deram tudo o que sou
Sou tão pouco, mas para mim, sou tudo;
Um tímido respeito por mim mesma
Esse orgulho de ferro por ser quem eu sou
As afeições verticais que eu enlaço
Os meus pensamentos fichados e organizados
E aqui os meus anseios,
Sem nenhuma vergonha, revelados
Com a minha ternura de menina mostrada
E demonstrada
Contudo, essa útil e feliz capacidade
De depender só de mim;
Se chove, sou feliz
Se não chove,
Ainda meu prazer é rua recorrente
Beco bem feito feito das palavras das quais me cerco
Que é a poesia macia de mão única,
E a fonte onde me sacio que é só minha .

O exterior é só o meu cenário
O meu bem estar é que é meu
Não tenho grandes desejos no mundo
Quero é enredar-me mais nas minhas palavras
E se existisse céu,
Que houvesse lá um dicionário.

TÃO CEDO


Hoje eu quis brincar comigo mesma
E amanheci mais cedo
Tão cedo que aurora ainda nem se preparou
E pensa que eu não a vejo
Está escuro lá fora,
E é breu em sombra,
É é carvão ainda em brasa,
Meio negro, meio rosa
Aqui dentro de mim, porém é luz,
Para mim
Para este corpo que andou e andou
Para este olho que viu e viu
Que experimentou e nem sempre gostou
Para mim
Não é tão cedo,
É tarde demais, pressinto.

05 January 2007

SUGESTÃO

Oi, querida afilhada,
Estou gostando de vê-la filosofar... Quase tanto quanto vê-la compor seus poemas... Maravilha!
Parabéns pela breve publicação de seu primeiro livro!
Que tal "CECI MESMA"?.
Beijos e que Deus a abençoe!
tio amilton
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A CABEÇA É PERNA DOIDA


Estou nesse momento correndo contra o tempo
Mas que luta mais insana e desigual!
O tempo tem três pernas longas
Uma para o passado insalubre que ficou
Outra para o presente domador que aqui está
E a terceira para o futuro caprichoso
Certo que ainda chegará
E eu, pobre corredor
Tenho uma perna só
Curta e limitada
Minha perna agora é
A mente desvairada
Estanque, vacilante;
A cabeça é perna doida,
Que quando dá dois passos
Volta ao seu lugar.

POEMA DO AMOR QUE VAI


Vinga-te de mim
E expulsa-me
Vinga-te e joga-me ao poço
Dos teus mais profundos quintais
Amarra-me a boca
Prenda-me aos cabelos
Ata-me
Diga-me palavras duras que mereço
Mas não te zangues demais
A ponto de deixar-me;
Porque o furo que fincaste à minha alma
Ainda é dor e ainda é brasa
Não te deixes derivar às tontas
Nem te deixes deixar de te buscar
O sentimento existe,
Mas o mal também existe
O mal sobrepujando o bem
Se é o que não nos vence,
Também jamais unidos nos terá.

POEMA DA PRESENÇA



Quem lhe falou de amor
E não lhe fez companhia
À hora mais sombria
Falou e só falou;
A presença ainda,
No meu glossário de afeição
É a chave e o cadeado
É a mão sobre o toque
É o rosário na fé
É a romaria e o cachorro obediente
Que acompanha a romaria,
Silente.
A presença não precisa de palavras,
De justificações,
Basta o estar junto,
No calor da proximidade;
A presença é o amor dedicado
Delicado e cúmplice,
O amor é o respirar de um com o outro;
Cadenciado.

VOCÊ ESTÁ CERTÍSSIMO



Uma das maiores frustrações do ser humano deve ser, quando, debatendo sobre algum tópico mais quente, ou discutindo a relação amorosa, ou mesmo vasculhando sentimentos que estão no outro e não só na gente, no meio de uma frase, seu interlocutor diz: “ Você está certíssimo”.
Daí todas as portas se cerraram, as argumentações caíram por terra, o diálogo se estancou e aquele que vinha carregando um cesto de emoções a despejar, que ainda tinha uma meada de conversa a tecer, perde o rebolado, recolhe-se à sua mísera certeza, sem convencimento algum, coça a cabeça, entre perplexo e vacilante, deixando espaço para mais nada, a não ser a frágil concordância de ambas as partes.
O que dizer depois de um “ Você está certíssimo”? Isso significa que seu interlocutor desistiu de você, não quer mais debater, a distância entre os dois foi sentidamente marcada a ferro e as porteiras, por fim, encadeadas.
Concordar com o outro em certas ocasiões é sinal de puro descaso, ou pior ainda, sinal de tédio e fastio.
Discordar então, não com a violência dos animais, mas com a delicadeza de flor, a fim de não ferir o outro, é generosamente ver o outro crescer, é de alguma forma, amar o outro, fazê-lo mais próximo à nós, e é por fim envolver-se na rede de emoções que nos cobre, a ambos.
O concordar é longínquo e ausente, o discordar é o amoroso ato de nos segurar a mão enquanto ali estamos.
Nunca gostei das afirmações baratas e de invólucro duvidoso.
Prefiro que me instiguem, que me façam pensar e que me deixem vasculhar a mente e o coração do meu parceiro de conversa, de senti-lo diferente de mim. O “ você está certo” esconde covardemente a identidade do seu contendedor.
Da próxima vez que me disserem assim: “Você está certíssima”, vou jogar-lhe à cara: “ Ah, é? Então acabo de mudar de idéia!”

04 January 2007

AO CONTRÁRIO


Se você me lê há algum tempo, certamente já deve ter notado que gosto de me referir ao “contrário” das coisas. Daí nasceram expressões minhas como “viver ao contrário”, “sentir ao contrário”, “falar ao contrário”.
Não quero aqui justificar meus pensamentos tortos, nem para mim mesma e nem mesmo para alguém que me possa ler, porque é absolutamente injustificável querer as coisas ao contrário. Eu as quero assim, e pronto. O mundo ao contrário deve funcionar melhor, senão, veja se me entende; se chorássemos primeiro antes de sentirmos qualquer dor, ali mesmo impediríamos que a dor viesse. Contornaríamos a dor. Se comêssemos antes de sentirmos fome jamais saberíamos o que é fome, acho que há pessoas que ainda não sabem, vivem comendo toda hora; conheço gente assim às pencas. Se nos detestássemos antes de dizer “eu te amo” salvaríamos aí um bom saldo de desprazer, ficaríamos somente no detestar, e que mal há nisso? Se eu detesto, mantenho a distância, se mantenho a distância, não me zango, se não me zango, não te perturbo, se não te perturbo, não nos detestamos tanto assim. Muito pelo contrário.
Se voltássemos primeiro ao invés de irmos, se nos banhássemos primeiro ao invés de nos sujarmos, se lêssemos todos os livros contidos numa vida bem à hora do nascimento e fossemos emburrecendo ao longo dela, nada mais justo e mais saudável. Para os velhos, basta que haja paz de espírito e perfeita ignorância das coisas, pois ao contrário, para que tanta sabedoria e lucidez à hora de morrer?
Eu preferiria escrever ao contrário a que sempre escrevi. Primeiro falaria do fim do poema, que é a conclusão definitiva de quem eu sou, e daí sim, escreveria o preâmbulo como o desfecho, só para dar aos outros e também a mim mesma, a intensa diversão de só lidar com as palavras.
O contrário sempre é mais verdadeiro e autêntico. Pega-se uma blusa, vira-se ao contrário, lá estão marcadas as costuras, as pregas, a construção exata do projeto. O lado sabidamente "certo" é perfeitamente ajustado ao ilusório, ao sentido plástico, irreal.
Quero viver ao contrário, mas não me deixam. Quando canto uma canção, quero que me aplaudam primeiro, capricharei na canção se for assim, bem aplaudida de fato.
Quero morrer ao contrário também. Quero estar no paraíso de alguém que me espera, sair de costas, pé ante pé, bem devagarinho, me livrar da terra que me se assentou por cima, retirar as flores fétidas uma a uma, cair na cama, abrir os olhos, dar o último suspiro moribundo, arfar com o peito forte e contente, e gritar: “ Tem sopa hoje?” Depois, levantar e ir ao cinema.

OLGARINA DOS SANTOS



Nesses meus tempos de áridos pesares
Falam-me de milagres todo dia
Milagre é o reverso da realidade
Coisa que não se vê, mas que se acredita
Precisaria de um milagre ontem
Desses que tirassem do pescoço, a corda
Ou me içassem do poço em que me encontro
Eram oito da manhã, o tempo tão chuvoso
Clamei à divindade sobre o mármore
Que me chegasse a solução pra minha vida
A campainha toca, tímida...
Abro a porta, esperançada, aflita
Quem é que entra, sorridente e firme?
Olgarina dos Santos, tão fagueira
Com seus cabelos longos soltos, farta cabeleira...
Foi se ocupando dos copos, da sujeira
E eu, agradeci de joelhos, e ainda estou agradecendo,
Por voltar a ser poeta, em tempo inteiro.
Olgarina não sabe, nem desconfia
Que é minha parceira na poesia.