12 March 2007

MINHA TRISTEZA


Preocupam-se os jovens com minha tristeza
Os velhos também preocupam-se
Os que estão perto
E os que estão na esquina franzem-me o olhar
Que vida triste, dessa menina!
Como é melancólica
Como sofre,
Como não se ergue!
Dentro de mim, preocupo-me também
Ah, não fosse essa minha poesia
Essa cantilena que me acorda e que me cobre,
Que vida triste eu teria!

AMARROTADA


Se eu fosse Deus
Não deixaria que o tempo passasse;
O tempo não é um bom passador
Para mim o tempo só lavava
Lavava a dor, lavava a mágoa
E entregava-me, assim, de volta,
Esturricada, seca, amarrotada;
Sou eu quem sei que me passo.

OS ESPELHOS DE CECI


Todos os espelhos que me refletem
Nunca me disseram que sou mulher
Lanço-lhes um olhar,
Eles me devolvem, apatetados;
"Poeta, sempre poeta,
Ainda poeta,
Mas por que poeta, Ceci?"
Eu? Eu dou risada.

11 March 2007

PEDRA


As pedras sempre intrigaram o poeta
As pedras são poeticamente indecifráveis
Mas como são poéticas as pedras,
Nas suas indagações de massa dura
E impraticabilidade de mudança de lugar!
Olhamos uma pedra e dizemos: “Pedra”
A pedra nos olha e nos diz:
"Tu, na tua feitura de alma,
És por dentro mais pedra
Da pedra de que sou pedra".

DE POETA PARA POETA - AH, ESSE TIO AMILTON...


Querida, acabo de me atualizar em seu maravilhoso blog. Wilma também. Gostamos muito. Mas fico a imaginar como conversar com uma autêntica poeta ou poetisa, utilizando de um linguajar que lhe toque o coração. Falar da vida com suas dificuldades e incompreensões? Falar de coisas concretas ou abstratas? Falar da dor ou da alegria? Do perdão ou da vingança? Do amor ou do ódio? Dos sentimentos tristes ou alegres? Da morte ou da vida?
Quisera muito ter o dom de acalmar o seu coração, mas sem sufucá-lo, sem retirar-lhe essa voz que encanta a todos que a amam...Mas como fazer, para quem não tem alma de poeta?
Penso muito em você e no pesado lenho que tem lhe provocado tantos pisões e cortes profundos, até a alma. Que a fazem sofrer, mas, por outro lado, que são perenes fontes de inspiração... Não daquela fonte de água crespa e cristalina de suas recordações de outrora. Mas que, embora sombrias e misteriosas, também matam a sede de paz. Isto, principalmente de paz. Deixe o coração desabafar, mas sem perder a fé e a esperança. Deus não nos abandona nunca.
Continue cantando, como uma Cecília Meireles, como um Álvares de Azevedo. Coragem!. De vez em quando busque um lenitivo qualquer... Estarei daqui sempre torcendo e rezando por você. Beijos do
Tio amilton

08 March 2007

UMA QUALQUER


Tem três dias que não escrevo
Hoje o jornaleiro me olhou, insatisfeito, por baixo dos óculos
Fingi que não vi
Há três dias que não tenho alma
Nem espírito
Na minha fraqueza, futilizo-me
Sou uma qualquer,
Por que me incomodo com isso?

MULHER


Tudo em mim é mulher
Meus olhos, mulheres virgens
Não viram tudo
Olhos imaturos, que passeiam,
Pelos prazeres interrogativos
De extrair desejo e devolver arrepios
Meus seios, mulheres na prisão
Feitos para a liberdade,
Conchas isoladas no confinamento
E voluptuosos na vontade
Meus cabelos, as mulheres mais ciganas
Que bate o vento e as muda de lugar
Uma hora cá, outra lá,
Lisos, escorregadios,
Que eu teimo em encrespar
Consoante à minha têmpera de graça
Meu coração porém, é a fêmea parda
Fêmea no cio,
E diáfana.

05 March 2007

POEMA DA FALTA


O que dizer de mim
Depois da roseira balançada?
Dormi ao relento essa noite
Acordei de madrugada
Havia uma nesga de sombra
E uma mina de trevas que me acobertava
O dia já raiou para toda a gente
Para mim, entretanto
Hoje de manhã é noite,
À tarde será noite
À noite,
Seremos nós,
Eu, noite,
A noite, noite.

04 March 2007

POEMA DA SOLIDÃO


Meu Deus, estou morrendo demais;
Deixa-me morrer,

E tendo que morrer,
Deixa-me morrer só um pouco.

POEMA DO AMOR ACABADO


É assim um amor que se acaba
Fica um gosto travoso de fruta que se comeu à hora mais errada
Mas fica também um cheiro de quem suou, suou
E não suportou o esforço do abraço.
Ficam-se os azuis,
Morre-se a todo instante
E para sempre.

MEU ÍNTIMO


Não me importa mais escrever para descrever meu íntimo
O que importa mais é que meu íntimo já se revelou
Aqui dentro pinto uma garça deselegante que anda em círculos
Um céu nublado, mas que nunca chove
Um cantinho em santuário
Que eu levantei para cada noite que passasse
No mais, há lágrimas secadas
Um afeto terno,
E as quireras das emoções despedaçadas.
Contemplo meu íntimo
Nada é igual ao o que tenho aqui fora;
Moro num livro,
As orelhas estão despedaçadas;
Aqui já não há garças,
E o nublado se virou para o nordeste
De alguma constelação galática
Se tem secura em lágrimas,
Foi porque o destino mandou que eu fosse assim
Uma mulher atenta, montada em decisão
As duas mãos cheias para oferecer
Mais um restinho de amor emprestado
Um coração que não bate mais
Só repreende, castiga, grita, esperneia
E ecoa.

02 March 2007

POEMA DE QUEM EU SOU


Ceci, afortunada...
Tenho duas virtudes
Uma é desprezar o mundo
E tudo que há no mundo
Outra é gostar de ser o que eu sou
O resto é defeito, é mágoa.

01 March 2007

SER POETA


Nunca desejei ser poeta
Quisera ter sido antes,
Uma confeiteira,
Uma passadeira de roupas, caprichosa,
A cozinheira dos pudins e camarões.
Sou poeta porque me é necessário acordar
Respirar o ar próprio e o alheio,
E despejar a angústia do mundo que trago entre meus dedos
Trago uma poesia rebelde, involuntária
Porque se eu existo, é quando a poesia é
Mas se eu morro, a poesia não fenece.

MEUS AIS


Roubaram-me os ais
Roubaram-me tudo
Agora tenho um punhado de ais
Fora do meu mundo
Mas como sinto falta do chorar profundo!

POEMA DE QUERO VIDA


Vida, dá-me o sonho de possuir um sonho
Dá-me a interna solução no aprendizado
Dá-me certezas
As pueris certezas
E dá-me a paz que escondi cá dentro
Bem escondida, porque nunca a vejo
Dá-me a estrada
Mas tira-me a porteira
Dá-me o barco

Mas ponha-me as velas
Dá-me o cavalo
Mas assente-lhe a sela
Dá-me a luz
E apaga-me a candeia.