02 June 2010

PARADOXO


Eu sou aquela que possui um navio e um porto
- um luxuoso navio de dois convés
e um porto estático de madeira encerada -
mas o quanto me falta!
o azul da colcha do oceano
e uma cabeça de água.

A POETA E O PIMENTÃO


A poeta almoça um pimentão;
ela que conhece este pimentão
mas não o desnuda;
ela que antecipa-lhe a vegetação,
e imatura,
por ter o pimentão dentro de si,
pimentão lhe é,
e pimentão se torna.

01 June 2010

A LEVEZA DA SOLIDÃO - MINI CONTO


Abri a caixinha de plástico amarela e tirei as coisas: um colar de pérolas de três voltas, um bilhete datado de Abril de Armando que me dispensava e uma rosa seca do dia dos meus trinta anos.

No momento que fui enrendar o pescoço em volta do colar, um estampido soou lá fora. Era meio dia e a rua neste momento não fervilhava.
Não tive ânimo para bisbilhotar, o almoço já ia sair, mas a notícia chegou rasteira com os gritos de Joaninha que passaram por debaixo da porta:
"Mataram, dona Nenê, mataram seu Camilo!"

Deu-me uma tristeza de colo, aquela tristeza de segurar o ar, de pensar palavra e reter palavra! Nem bem vi, o colar de três voltas falou por mim: mandou que a rosa ainda mais se secasse e que Camilo subisse depressa para o lugar onde ficam os ares, e que aqui, livre, não precisasse haver mais despedidas.

O que a polícia apurou depois, ficou retido, lívido, num papel verde assinado pelo sargento de bigode.
Bem tarde da noite, quando tudo era silêncio de novo, guardei as coisas de volta dentro da caixinha amarela; o relatório do policial em cima tudo, e pela primeira vez em muitos anos, dormi a noite inteira.

27 May 2010

FATO

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Um galho seco;
um anjo que desistiu.

15 May 2010

POEMA PARA AS MULHERES SÓS


Somos mulheres sós
e sós estamos, aos milhares.
Já deixamos as nossas queixas diárias de mártires
e não mais contamos as horas
para fazer o dia render mais.
Nossos filhos agora estão preparando outros filhos
e nossas mãos vazias de ar estão.
Somos mais pobres agora
porque somos mais cheias da inutilidade.
Queremos o frenesi
e tecemos mantas de lã.
Que proveito temos?
O sol nasce para nós
mas não nos aquece como antes.
Ainda pelo sol, nasce o sol
e ainda assim, suspiramos.

TOLERÂNCIA


Meu tesouro, meu bem, meu mar de céu
seja para mim a terra e a minhoca

que combinados, compõem a unicidade;

e seja para mim o gás de ar que me circunda

e do ar o gás que eu engulo, imperceptivelmente.

E seja para mim, eu mesma;

esta confusão de seres que me encara.

Só seu amor me salva e me destina

ao acontecimento triste dos amantes,

que hoje ama e que amanhã, tolera.



10 May 2010

O TROCO DE PEDRO


Vem um viandante empoeirado e me pede um troco.
Quis dizer como Pedro,

"nao tenho ouro e nem prata,

mas o que tenho lhe dou".

Dei-lhe um sorriso que estourou os ares

e a moeda que trocava generosidade

dentro do ralo rolou.

Como Pedro, sorri a amenidade

e como Deus, me eximi.

05 May 2010

AMOR ESPERANÇOSO


Cria em mim, oh Deus, um amor esperançoso;
um amor de esperança tanta,
que imite o respirar trêmulo
e leve do passarinho
que aqui ao lado está jogado ;
o fogo desejoso de vida
será vitorioso sobre o chão.

04 May 2010

POEMA PARA UMA PONTE


As insensíveis perfeições dos arcos,
a luz amalgamada refletindo a ponte

e as sombras frescas mergulhando a água;
tudo é a beleza da vã utilidade.

Se um perdão eu tivera para a humanidade

seria por este inerte e súbito momento;
uma paz de Deus soprada em modelagem
e a luxúria quente de satisfação da alma.



POEMA DA ILUSÃO DE MIM


Ah, este teu amor,
pluma de pássaro que não viajou
nem no ar flutuou, se livre fosse.
Pousada à esquerda do suporte da moralidade,
transpirou imagens e contorções dos ares
e aqui, iludida comigo, se quedou.


26 April 2010

O POEMA


Que saudade dos fracos!
Daquelas falinhas deles de desculpas,
Que saudade das despesas que me dão,
dos sorrisinhos amarelo baião de tanta gentileza!
Onde estão os fracos, meu Deus?
Todos aqui à minha volta têm brincos de rubi
e sapatos novos.
A minha fraqueza está sem par,
e desemparelhada, dói.

21 April 2010

LUZ


Até o meio dia deste feriado
minhas células darão a festa do pijama
imaginando a listras grossas de ressaca.
Se o relógio tiver que bater três horas
o céu anunciará uma sexta feira santa
chumbo que pesará por sobre meus anéis.
E eu cantarei a cantiga das horas
-aquelas que combinam com a cor dia -
Se há luz, luz haverá,
ilusionismo de luz, na sua falta.

22 February 2010

PRESENTE

André, em seu blog, O CONFESSIONÁRIO MENTAL, me deu este presente e postou o seguinte:
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Vou começar esse post com uma música de Lulu:

"Quando eu era pequeno eu achava a vida chata
Como não devia ser
Os garotos da escola só a fim de jogar bola
E eu queria ir tocar guitarra na TV
Aí veio a adolescência e pintou a diferença
Foi difícil de esquecer
A garota mais bonita também era a mais rica
Me fazia de escravo do seu bel prazer

Quando eu saí de casa minha mãe me disse:
Baby, você vai se arrepender
Pois o mundo lá fora num segundo te devora
Dito e feito, mas eu não dei o braço a torcer
Hoje eu vendo sonhos, ilusões de romance
E toco a minha vida por um troco qualquer
É o que chamam de destino, e eu não vou lutar por isso
Que seja assim enquanto é"


Vou comentar dessa música porque muito do que está nela é visto em mim. Sim, quando eu era pequeno eu queria ir tocar guitarra na TV. Talvez não tão pequeno quanto Lulu, mas posso dizer que ainda não tinha ideia do que fazer da vida.
Mas a parte que eu mais me identifico, e digo isso pois essa parte me toca muito forte é quando Lulu diz que sua mãe o alertou ao sair de casa: "Você vai se arrepender, pois o mundo lá fora num segundo te devora". Até hoje me lembro da expressão de assustada (talvez até mais que a minha) que minha mãe me olhava e dizia: "Tome cuidado meu filho". É mãe, eu, garoto ainda, na ansiedade de morar fora estava achando tudo uma maravilha, mas as dificuldades vieram e eu persisti. E esse texto agradeço a ti, por todo sacrifício e esforço que teve em minha criação. Todas as dificuldades que tive você esteve ao meu lado e serei eternamente grato por isso.
Amanhã, partirei mais uma vez e sentirei sua falta. E não digo isso pelo fato de ter uma vida mais cômoda não, digo isso pois o simples fato de ter sua companhia ao longo do dia me conforta.
Sei que as pessoas tomam seu caminho um dia, mas nenhuma pessoa no mundo deveria perder o aconchego de sua mãe. Só ela sabe o quanto um filho necessita e em quê.
De qualquer maneira, "dito e feito, mas não dei o braço a torcer".
Hoje tenho certeza de que tudo que sou, devo a ELA e como já dito, é a ELA que homenageio neste texto. Obrigado Mãe!


01 February 2010

VIDA DE ESPINAFRE


Há largueza em meu caminho;
nem sempre as curvas são curvas
(são é ilusão de ótica,
como os oásis fincados no deserto)
e as vezes são traçados de uma mão infantil
trêmula e inexperiente.

A largueza é o bicho que me come
e o traçado é a ladeira,
(íngreme que nem papel de parede).
Quanto mais vivo, mais sofro.

Isto seria anormal,
não fosse a vida banal de todos nós;
janta, dorme, acorda e almoça.
Vida de rei é vida de espinafre.