30 January 2007

TER ESPERANÇA


Ter esperança
É tão infantil
Quanto o debruçar à beira do regato
Prá ver se um peixe passa,
Estica a cabeça pra fora
E lhe deseja um bom dia.
Ter esperança não é coisa razoável
Ter esperança é sandice.
Basta que eu feche meus olhos agora
Que me permita me imaginar mais madura
E muito menos sensivel
Para recolher os frutos dessa vida
A vida passa,
Como a rola que passou;
Inteira, fugidia,
E voou,
Sem rumo;
Ela não tem esperança,
Eu nunca tive.

27 January 2007

ESTANDO AFLITA, A PÍLULA


Como devo rezar quando estou aflita?
Devo fazer penitências e me atirar ao chão?
Devo confessar meus pecados
E ainda assim não ser em nada perdoada?
Devo me flagelar
Implorar,
Fingir que sou amada?
Estou aflita
Nada me convence mais
Do que uma pílula
O Deus perdoador
O Deus consolador
Aqui está, onipresente,
Onisciente,
Na frente e por detrás da bula.

26 January 2007

ESPERA


Por que a espera não é mais nem menos
Caliente como antes?
Antes a espera era uma dorzinha no peito
Um ar insatisfeito
Enquanto a vida corria incerta
Feito a água que cai sobre o cristal
Agora a espera é o espinho feito espeto
Virado à beira do coração varado
Não é só a dureza do diamante
Mas o fardo do suor,
O custo da palavra
O risco da memória.
Espera que se alonga,
Espera que se verte,
Em lágrimas minhas
Enquanto me deito,
E espero.

OLHOS TORTOS


Há centenas de pares de olhos me olhando agora
Olhos tortos, olhos amendoados
Olhos ricos,
E olhos pequeninos, apertados
Como os meus.
Tenho um profundo medo de todos os olhos
Quando me lêem, sabem que me lêem
Por dentro.
Qual é a mulher, cuja coragem
Não lhe é desafiada diante de outro olhar?
Sou eu a pequenina e frágil poesia
Que se amedronta facilmente, e ainda assim
Expõe-se
Diante da visão dos pares tortos,
Dos amendoados, dos ricos olhos
E nem sabe ainda se os olhos miúdos que me lêem
Também podem me julgar
Como me julgo;
Ínfima,
E com a visão mais torta
Do que os meus olhos minúsculos e pobres.

25 January 2007

POESIA MORTA


Hoje não consigo escrever uma linha
É porque o amor por mim mesma já voou
O amor dentro de mim foi-se como um kamikaze
Deve ter morrido,
Deve ter matado
A única coisa que eu tinha;
Essa poesia minha,
Tão generosa, tão boa,
Às vezes feita de anjos,
No lado obscuro da vida
Às vezes feita do mal
No lado feio em que existo.

EU E A SERPENTE


Eu ando devagar para a serpente não me ver
Tenho medo do olho e da força da serpente
Mas ela se distrai enquanto eu passo
Com um barulhinho de inseto que sobrevoou.
No mundo tem uma serpente para cada pessoa que nasce
A minha também é prematura;
Nasceu antes que quisesse e por isso, é só fúria
Não me dou com ela, e sempre fujo
Também me disfarço de flor, às vezes de ramada
Mas a serpente é mais sagaz e rápida do que eu
Cá, abaixo dos meus pés, ela se enrola
Mas nunca me enrosco nela;
E nunca poderia,
Então eu passo,
Passo a passo,
Ssssssssssssss

23 January 2007

PAZ, SOSSEGO E CALMA


De todas as coisas que eu suponho
Suponho que passar os dias como estou passando
Com chuva e raio
Nuvens e derrapagens
Seja o que eu mereça viver agora
E por enquanto.

Nos ventos há silêncio e calmaria
Não há episódios crus
Nem emoções contrárias
Barulho de festim em tempos maus
Maldade falha.
Há calma e há só calma
Enquanto os dias passam.

Se houvesse uma gaivota nessa região
Onde eu habito
Por certo cruzaria o céu a todo momento
Se houvesse um mar onde eu tenho a minha casa
Ele estaria como um caldo da cana, liso

E se houvesse um amanhã que eu muito desejasse
Seria este momento em que eu vivo
Calma, sossego e paz,
Nada mais que isso.

18 January 2007

T

Tédio, que tédio;
Turbinar o tempo é o que tenho
Transformar o trapézio em fino trapo
Tonificar o tônus dos meus atos
Traçar os tolos tratados
Traduzir o talvez
Trocar o tabaco
Por algo mais tácito
Trazer para mim o teatro
E contemplar, atônita, o tablado
Tirar do tatame as trapaças
Teimar em tirar a tampa
Do tampouco, do tornado
Topar as touradas internas
Tomar os tiros do tártaro
Tagarelar em tupi
Trapacear no barato
Tabular tantos temores
Tombar sobre mim o talco
Tocar a tez da toalha
Tender a ser tonta demais
Temer a tarântula trágica
E transformar o tender
Em tilápia
Transviar-me para o túnel
Tirar o meu bem para um tango
Trocar o Monteiro
Por qualquer Tavares
Tentar ser mais terna
Tocar um trompete
Para tropicalizar o tambor
Tomar um grapete
Treinar uma trégua
Tingir o tapete
Atolar um tatu
Terceirizar a ternura
Em arte estampada
Temer o tirano
E atormentar o tinhoso
Entardecer todo dia
Atrasar-me às três da tarde
Atirar alguém no tucupi do pato
E apertar-me pateticamente o sapato

Mas tudo o que tenho é tédio,
Tédio tremendo
Tédio teimoso,
Tédio esticado.

17 January 2007

CHOVE, RIBEIRÃO


Ribeirão Preto não se cansa
E teima na chuvarada
Ribeirão Preto tem um manancial de água pra cair
Que é bomba d´água no céu
E Ribeirão em cheia aqui na terra.
Depois de tanta chuva
É o Rio Amazonas de um ribeirão inchado
Ou o Rio Nilo de um São Paulo devastado
Deve haver peixe de rio e de mar se reproduzindo
Na pororoca do bueiro da esquina
Tubarão já se mudou pra cá
Junto com as lulas que eu comia fritas
Agora, aqui tudo dá;
Barco, pesqueiro, a rede e o pescador

Cada vez que abro a janela
Ribeirão está crescendo de chuva
Está se magnificando de enxurrada
Está molhando não só as ruas
Mas a minha figura triste
Fechada, recuada
E a minha poesia,
Que ficou menor, amarga,
Que se quedou por detrás da vidraça embaçada
Depois de tanta água.

ESCREVER


Se um dia eu deixar de escrever
Foi porque arrancaram-me todos os dentes
Tiraram-me a língua
Vedaram-me os olhos
E deixaram as minhas mãos jogadas à beira da estrada
Com uma flor decepada no meio delas
Ainda assim, tentarei escrever com os meus pés.

MINHA POESIA


Tudo que se pôde falar do mundo
Já foi dito;
Já descobriram o nascimento e morte das estrelas
Os sete mares com todos os portos
Já chamaram o albatroz de albatroz
E já modificaram os vales
Tornando a terra dos montes em áreas de pastagens
Já identificaram que
A erva daninha é danosa
E a orquídea deve ser mulher, porque é caprichosa
Já descobriram um jeito do café ficar mais preto
E que as baianas gordas de Salvador usam jeans quando não há turista
Uma coisa ainda não foi dita
Que o mundo é triste, triste,
Se há alegria, já voou
Ninguém dá um nome para a minha melancolia
Ninguém me consola
Sabem tanto do mundo;
Ninguém sabe da minha poesia
Nem da minha dor,
Inomináveis.

BEIJAR UM TROUXA




Beijar um trouxa
É beijar uma metade da laranja
Dá uma acidez na gente
Dá uma gastura
A gente conta o tempo
Para o beijo acabar
Como iniciou
De surpresa
A gente beija
Mas não beija
A gente conta os movimentos
Da boca da gente
Dentro da boca do trouxa
Depois de três movimentos
Já é a hora da surpresa acabar
Surpresa é assim
Tem a boa
Mas tem a ruim
Beijo na boca de trouxa
É acidente bucal;
Amor é que nunca foi;
Amor foi quando beijei lá no passado
Os movimentos era longos
Ou curtos, mas desesperados
Amor é beijar dentro do relógio sem ponteiro
Beijar um trouxa é só beijar,
Por fora,
Mas o relógio inteiro.

15 January 2007

FERRO GUSA


Há palavras que me encantam, e eu nem sei o que são
Ferro gusa, por exemplo, é uma;
Como deve ser delicioso andar num trem carregado de ferro gusa
O vento batendo, o apito berrando, o ferro se gusando,
Se gusando, feliz, à ponta do vagão
Ferro gusa deve conter o que há de melhor,
Não só no ferro,
Mas nas implicações que venham dele,
Só porque ele foi chamado assim
De gusa;
Há letras no meu nome que também me encantam
O equilíbrio das vogais dando as mãos às consoantes,
Todas enfileiradinhas,
Criando um som de cristal quando bate o vento.

Ferro gusa e meu nome são palavras cálidas
E úteis,
Palavras que o vento não levará
Por que o ferro é gusadamente pesado
Uniforme;
Ele permanecerá
Meu nome é forte;
Também permanecerá,
É a música da gusa
Meu nome é o trilho de ferro,
Por baixo do vagão
Por onde eu faço os versos.

EU ODEIO OS BEATLES


Hoje eu acordei mais Beatles do que nunca
"Michelle” está tocando sem parar na minha cabeça
E “the ticket to ride” já está esgotado na estação
Do rádio e da minha orelha
Estou azedada e grossa.
Não tenho vergonha de confessar a todos
Que odeio os Beatles
Os ternos dos Beatles
O sotaque acaipirado dos Beatles
A inimizade dos Beatles
As mulheres dos Beatles
Mas eu sou a voz que prega no deserto da mídia
Só calangos me ouvem
E a terra quente respira.
Então, quando você for de Beatles,
Me dispense,
Vou cantar aquela canção de roda
Passando o anel de mão em mão
"I’m so sorry" se lhe desaponto
Se não sou "cosmopolitan",
Tampouco "cult"
Nem parte integrante de uma geração
Quero mais é esquecer a geração dos Beatles
E voltar a ser criança
No pátio da escola
Cantando a mulher rendeira
Que me ensina a fazer renda
E que eu ensino a namorar.

SAUDADE É BICHO DE PÉ


Duas coisas me fazem sentir saudade
O tempo que eu era criança e não sabia das coisas;
Pensava que a vida fosse esse soninho depois do almoço
Curto, suado; só um descanso, não um gozo.
Outra coisa é a mentirinha de verdade
Que me inventaram ou eu inventei para viver
Por ainda não saber das coisas
Pensava que a vida fosse esse cantigar tristonho,
Que troco tem troco, e que palavra é tiro de revólver
Saudade é um bicho de pé que dá na cabeça
Instala-se e incomoda
A gente sabe que precisa tirar
Mas dá pena;
Na falta do que fazer,
É bom coçar de saudade.