25 August 2011

SERÁ AMOR



Será amor, será amor...
A página virada
ainda com o molhado dos meus dedos,
será amor;
a lâmpada queimada e fria
que foi deixada para trás
será amor;
o pingo da tinta branca
respingado sobre a pia,
será amor...
Ainda será amor
a mancha escura do lençol debaixo,
a marca rosa na parede,
vinda da tua fúria,
o ar ocre do quarto
lutando contra as cortinas
e a tua desolada abstinência de mim...
Será amor
o que não foi dito
e ainda depois de tudo,
o que foi dito,
e o que foi revelado,
será amor, será amor...
O amor se condensa enquanto vive,
contudo falhado, pouco, desorientado,
depois de tudo,
depois de um tudo,
ainda será amor.



23 August 2011

CANÇÃO DA ALMA



Olha-me, mas ama-me,
e nunca me olhe com um olhar
vagaroso, parvo
que se despeja  por exemplo, sobre um regador...
Olha-me como uma alma
que pede o braço amoroso
de outra alma...
Ama-me como se apenas existissem
nossas duas almas;
a minha alma que pede
e a tua alma que acalma.

AMÁVEL

 
Amo como aquele que ama porque ama.
Que razão eu teria para não amar de fato?
O mato ama o caparrato,
que ama o sangue do boi,
que vem a amar o mato...
O bom amor ama o próprio amor,
pois o amor é bom
para si mesmo, por si mesmo,
e por tudo isso, amável.

13 August 2011

CANÇÃO DA AMÉRICA





Cantei contigo para tornar-te meu amigo
a boa canção da América.
Nossa amizade foi tanta
que virou um aporte de
risco de faca nos olhos
e bomba de gasolina 
em nossos corações.
Alimentei-me de tuas sentenças curtas
e de teu cuidado,
qual sombra minha que não me larga.
A canção da América
foi então a canção das lógicas;
vê o amigo partir,
e surge o delicado amante
o que dentre todos,
elegeu-se  em fios de respeito
na cama amaciada do perfeito.





01 August 2011

A BOA SOLIDÃO




De que adianta a boa solidão da única flor na haste
se há pássaros, se há abelhas, se há vento?
Que dúvida é a minha boa solidão,
e que seres invasores me acercam!

SENHOR, SENHOR



Senhor, Senhor, seu trem que passa as 9
está atrasado desde ontem!
Senhor, Senhor,
sua placa de recados
diz para eu passar amanhã!
Senhor, Senhor, hoje é segunda feira
e amanhã é segunda feira na sua folhinha!
Senhor, Senhor, em que devo prestar atenção:
ao trem, ao tempo ou à sua confusão?


31 July 2011

ANTES




O que era antes foi o antes.
O antes é uma palavra absurdamente suicida;
quis ser e já se foi.
O que é agora é coragem.

DO QUE FALO




Falo de coisas simples para libertar as complexidades.
Do que sou, não sei  muito ainda
mas sei do que fui.
E naquele tempo, tampouco sabia muito;
verossivelmente nada.
Foi preciso que as minhas primaveras se juntassem,
uma após as outras,
que as folhas verdejassem, depois caíssem,
e que o frio chegasse, que o verão torrasse;
foi preciso o suor ácido por cima da testa
e foi preciso descanso de mártir quando a guerra acaba
para que eu me tornasse uma criatura sapiente e calada.
Mas do que eu calo, falo,
e agora já nem sei do que falo.


24 July 2011

O TERÇO




Para rezar o terço,
diminuí meu nome
que é tão extenso,
esse meu grosso nome...
Para rezar o terço,
diminuí meus braços,
que são tão extensos,
esses meus fortes braços...
Para rezar o terço,
diminuí os versos
e só falei de anseios,
de pedir perdão,
para murmurar as faltas
e eram tão ricas as minhas palavras!
Para rezar o terço
falei de mim
e quando falei de mim
reduzi-me a nada
Só a divindade espia
quando o terço cria
a linha de pecados
que a corda que expia.
Para falar de mim,
fugi de de mim
falei do terço
que arrebata,
e que acolhe
o meu nada,

23 July 2011

CANÇÃO DA PITANGA


O gosto da pitanga por debaixo da chuva fria,
o estremecer dela,
o anúncio da acidez e da doçura quando estia,
o ar fresco que morde a fruta
e o círculo vicioso da gratidão
ante o belo, o inevitável e da natureza, o grito.
Comer da fruta e digerir a vida.

21 July 2011

CANÇÃO DO TÉDIO



Oh, lenço amarrado ao pescoço que és tu, vida!
Assenta-me bem, mas que desconforto
em meio a este calor de fracassos e cismas!

19 July 2011

O TÍTULO DA ROSA


Este é o título da rosa que me destes: o desespero;
e este é o meu suspiro pela morte da rosa.
Viveu em si, vibrou-se,
adquiriu a cor escarlate de seu clímax
para depois enfiar-se no túnel escuro
e estrebuchar de dor e arrefecer-se.
O desespero angustiou-me a fala
quando a rosa seca já tinha
o único significado ao qual  se permitira.
Então, o título foi outro: o alívio.

12 July 2011

BASTA-ME



O telefone está tocando lá embaixo
e eu me zango.
Para bastar-me, basto-me
e para só viver,
somente vivo.
Eu, este meu lado triste,
aquele meu ar alegre,
com minha companhia
austera, honesta,
insuportavelmente descritível.


11 July 2011

BELEZA

Achar beleza dentro de si mesma;
contar as belezas,
como se contasse as múltiplas tristezas;
e mais do que beleza,
achar aquilo que nos faz perfeitos
depois de nos terem tirado
a beleza, a beleza e a beleza.

02 June 2011

11a. FEIRA DO LIVRO DE RIBEIRÃO PRETO





Caros amigos,
Estarei no SALÃO DE IDÉIAS da 11a. Feira do Livro de Ribeirão Preto, as 9:30, no Palace, ao lado do Theatro Pedro II, juntamente com as escritoras Eliane Ratier e Mara Senna.
Estaremos interagindo com o público e falando de nossas obras.
Logo após, estarei no estande dos autores locais,
em frente ao Theatro, autografando o meu mais recente livro: 
A CASA DA INSTABILIDADE
Sua presença nos honraria.