13 April 2012

NEM TUDO É FELICIDADE




Nem tudo é felicidade;
a ave que cruza o céu,
tão bela em sincronicidade,
vem arrebentando o ar
com a força dos músculos
e com a grandeza da vontade.
Pois que não há felicidade
no vai e vem mecânico das ondas,
nem no coqueiro manso
que se distribui, tesudo
por debaixo do solo.
Nem tudo é felicidade;
e nem a felicidade é tudo.
Basta-nos viver cada dia,
condignos, desempenhando
cada um de nós o seu papel;
a ave que cruza o céu,
o vai e vem das ondas,
o coqueiro conformado,
tudo contribui para o cenário
de uma paz aparente,
mas impossível...
No esforço, não há paz;
Só há descanso no ócio.

10 April 2012

TUDO MORRE




Tudo morre;
morre a tarde, morre o sábio,
morre a suculência da carne.
Tudo morre,
tudo sublima, tudo transmuta...
Morre o pelo do gato
e morre o gato,
e só não é imorredoura
a visão fugidia do seu salto
(esplêndido, livre, sinuoso)
que venho guardando, incólume
por todos esses anos,
a habitar consensualmente a minha memória.
Aqui ele persisitirá, magnífico,
absurdamente vagaroso e belo,
a despejar uma leveza cívica, correta
lampejos de imortalidade e verdade,
na  perpetuidade viril desta imagem
que será assustadoramente vívida,
enquanto existo.

29 March 2012

CORRE, PEQUENINA



Corre deste mundo, pequenina,
corre!
Que a tua infância acaba
e lhe dá os mal assombrados,
onde tem dor e lascívia!!!
Corre deste mundo, pequenina,
corre!
Porque sua infância pouca
passará completamente
quer você corra,
quer pare
na esquina da resolução,
quer feche os olhos,
quer veja,
quer você mude,
quer não.

POETA




O poeta não é nada mais
do que aquele ser adultamente melancólico
buscando a criança que foi por debaixo da cama.

POEMA 1





De quando fui menina,
nem sarda restou
As palavras boas
que aprendi
deram-me luz e sapato de salto.
Se os gestos de menina
eram vigorosos,
foram apenas largos gestos para dentro de mim;
e hoje eu agarro as folhas mais altas
dos coqueiros imperiais que margeiam o rio.
No fundo, no fundo, tudo é ilusão...
Quem foi mais feliz, a menina sardenta
ou a mulher de agora que dança?
Ninguém sabe de felicidade, enquanto vive.

21 March 2012

CANÇÃO DE FAZER LEMBRAR



Era uma vez... um menino bonito...
(as notáveis histórias
sempre começam com "era uma vez"?)
E esse menino bonito tinha ficado encantado na minha memória
(encantado é quando
uma imagem congela-se ,
assim, para sempre,
e portanto, perpétua).
Tinha os cabelos anelados,
de uma cor cáqui
e sua alma  parecia uma nuvem
de tão purificada....
Passaram-se tantos dias e tantas noites,
os sonhos passaram, os pesadelos passaram,
as ruas ficaram mais largas,
os rios vomitaram peixes de tanta sujeira,
as nossas crianças nasceram, cresceram,
e o menino ali ficou, guardado,
caladinho e eterno
sentado à mesa da minha memória.
Um dia, assim sem mais nem menos,
o menino ressurgiu bem à minha frente
(trajava uma bermuda cáqui e uma camiseta branca,
tinha a barba e os cabelos brancos,
que eu tolamente pensava que fossem cáqui).
Tantos dias e tantas noites passando,
tantos sonhos passando, tantos pesadelos,
as ruas ficaram estreitas para tanto frisson,
que até os peixes elevaram-se da água
por causa desta graça.
O  menino bonito levantou-se, de repente da cadeira
à mesa da minha memória,
circunspecto, com sua barba branca,
e seus cabelos brancos,
e serviu-me o mais magnífico manjar,
o mais virtuoso prato,
a mais fiel de todas as comemorações;
que vem a ser, a sua alegre presença de agora...
Salve, meu Deus,  aquilo se preserva,
e salve tudo o que a memória guarda!

16 March 2012

POEMA PARA MEU AMOR



Um divino amor de gato,
ah, esse amor que  mata!
Lambe-me, mas
não come a minha alma;
deixa-me solta, a zoar,
libélula, na minha liberdade.
E se não me compreende,
se não canta comigo,
é porque compreende
a sua própria liberdade.
Somos dois em um,
como a marmelada e goiabada
eu, a marmelada....
Ah, esse amor divino,
meu gato e eu,
que me contou sobre as farsas
das estrelas e das cartas
Falou-me, sorridente
da ausência do divino
entre nós, tão venerado.
Falou-me das casas antigas,
das receitas caseiras tão antigas,
falou-me do nosso amor, também antigo,
até que, vencida, me calei,
por falta de palavra.
Ah, divino amor de gato,
que não me come as vísceras,
mas me mata!

HUMANIDADE



Um dia de menos,
uma humanidade apressada
e um passo pequeno para o futuro.
Somos todos e somos um
e justamente hoje,
que nada me vence
e que nada me arrasa
somente hoje,
descobri a humanidade
que em mim reside:
a falta de vontade,
e coragem para nada.

23 January 2012

POEMA PARA O AMOR DE VOLTA


Entramos no mar...
Uma gota perolada do seu suor
bateu na água qual fruta sazonada.
Não se aguentou de tanta madureza
e de tanta espera,
tal qual fora esse meu amor
que de adiamentos, que de ambições,
que de promessas esgarçadas,
que de graças postergadas,
subitamente, bateu no seu amor,
que me aguardava, tenso,
como o mar que entráramos
e fez do meu mergulho em sua roda,
uma partida suicida só de ida,
para aquilo que em vida
eu chamei de volta.

23 December 2011

SAFRA DE MÁGOAS


De todos os meus erros do passado
apenas um me persiste;
o de ser terra pronta e cultivada
para os desajustes do amor...
Ser como a terra,
deixar-se lavrar como a terra,
receber a abundância da água queixosa,
murmurar o crescimento da mágoa
é a minha estação e a minha safra.
Fosse a minha tristeza uma bandeira,
esta seria monocromática,
e se fosse um rio,
seria um rio de uma só margem...
Posto que já vi o que agora vejo,
esta é a minha condição de alma:
nem o erro me ensina,
nem a virtude do novo me acalma...

21 December 2011

AQUILO A QUE CHAMAM DE AMOR


Quero agora um amor
que me desprenda do meu corpo.
Quero um amor fácil,
como as estórias de Andersen,
como os rios fáceis do Amazonas
e como as luas certeiras do oriente.
Quero um amor que não me peça as cartas
e que  somente me dê
o desejo, o desejo e o desejo.
O desejo fácil das facilidades,
o desejo fácil das amenidades
e finalmente,
o desejo fácil das banalidades
que compõem aquilo
a que chamam de amor.

14 December 2011

A VOLTA




Nem cem anos se passaram
e a natureza nesta minha volta
ainda respira.
Porquê fiquei muda,
nada significou tanto como a
falta da minha fala.
Se não falei,
foi porque vivi,
e foi uma vida longa,
de cem anos,
de cem juras sem descanso,
de cem braços e cem seios,
de cem lábios e cem noites boas de amor,
e ainda agora, bem agora,
sem tristeza e sem pudor.

06 September 2011

O SONHO

O que é o sonho
a não ser as luzes,
e o brilho da promessa?
Uma promessa aproxima muitos;
o sonho no entanto, sela poucos
que nele crêem e nele se aninham.

O CASAMENTO


Casa-se a noivinha;
casam-se as tias, a mãe,
a sogra, casam-se as madrinhas...
O amor de dois
envolve o público.
Casar-se para tornar
único o que é de todas:
a beleza incerta do futuro
e a despedida triste da alegria.

25 August 2011

CANÇÃO DO DESAFETO DE MIM MESMA



Amo os meus músculos,
mas não amo a minha consciência.
Meus músculos traem-me a cada instante,
mas essa minha consciência,
ah, essa me acusa!