06 September 2011

O SONHO

O que é o sonho
a não ser as luzes,
e o brilho da promessa?
Uma promessa aproxima muitos;
o sonho no entanto, sela poucos
que nele crêem e nele se aninham.

O CASAMENTO


Casa-se a noivinha;
casam-se as tias, a mãe,
a sogra, casam-se as madrinhas...
O amor de dois
envolve o público.
Casar-se para tornar
único o que é de todas:
a beleza incerta do futuro
e a despedida triste da alegria.

25 August 2011

CANÇÃO DO DESAFETO DE MIM MESMA



Amo os meus músculos,
mas não amo a minha consciência.
Meus músculos traem-me a cada instante,
mas essa minha consciência,
ah, essa me acusa!

SERÁ AMOR



Será amor, será amor...
A página virada
ainda com o molhado dos meus dedos,
será amor;
a lâmpada queimada e fria
que foi deixada para trás
será amor;
o pingo da tinta branca
respingado sobre a pia,
será amor...
Ainda será amor
a mancha escura do lençol debaixo,
a marca rosa na parede,
vinda da tua fúria,
o ar ocre do quarto
lutando contra as cortinas
e a tua desolada abstinência de mim...
Será amor
o que não foi dito
e ainda depois de tudo,
o que foi dito,
e o que foi revelado,
será amor, será amor...
O amor se condensa enquanto vive,
contudo falhado, pouco, desorientado,
depois de tudo,
depois de um tudo,
ainda será amor.



23 August 2011

CANÇÃO DA ALMA



Olha-me, mas ama-me,
e nunca me olhe com um olhar
vagaroso, parvo
que se despeja  por exemplo, sobre um regador...
Olha-me como uma alma
que pede o braço amoroso
de outra alma...
Ama-me como se apenas existissem
nossas duas almas;
a minha alma que pede
e a tua alma que acalma.

AMÁVEL

 
Amo como aquele que ama porque ama.
Que razão eu teria para não amar de fato?
O mato ama o caparrato,
que ama o sangue do boi,
que vem a amar o mato...
O bom amor ama o próprio amor,
pois o amor é bom
para si mesmo, por si mesmo,
e por tudo isso, amável.

13 August 2011

CANÇÃO DA AMÉRICA





Cantei contigo para tornar-te meu amigo
a boa canção da América.
Nossa amizade foi tanta
que virou um aporte de
risco de faca nos olhos
e bomba de gasolina 
em nossos corações.
Alimentei-me de tuas sentenças curtas
e de teu cuidado,
qual sombra minha que não me larga.
A canção da América
foi então a canção das lógicas;
vê o amigo partir,
e surge o delicado amante
o que dentre todos,
elegeu-se  em fios de respeito
na cama amaciada do perfeito.





01 August 2011

A BOA SOLIDÃO




De que adianta a boa solidão da única flor na haste
se há pássaros, se há abelhas, se há vento?
Que dúvida é a minha boa solidão,
e que seres invasores me acercam!

SENHOR, SENHOR



Senhor, Senhor, seu trem que passa as 9
está atrasado desde ontem!
Senhor, Senhor,
sua placa de recados
diz para eu passar amanhã!
Senhor, Senhor, hoje é segunda feira
e amanhã é segunda feira na sua folhinha!
Senhor, Senhor, em que devo prestar atenção:
ao trem, ao tempo ou à sua confusão?


31 July 2011

ANTES




O que era antes foi o antes.
O antes é uma palavra absurdamente suicida;
quis ser e já se foi.
O que é agora é coragem.

DO QUE FALO




Falo de coisas simples para libertar as complexidades.
Do que sou, não sei  muito ainda
mas sei do que fui.
E naquele tempo, tampouco sabia muito;
verossivelmente nada.
Foi preciso que as minhas primaveras se juntassem,
uma após as outras,
que as folhas verdejassem, depois caíssem,
e que o frio chegasse, que o verão torrasse;
foi preciso o suor ácido por cima da testa
e foi preciso descanso de mártir quando a guerra acaba
para que eu me tornasse uma criatura sapiente e calada.
Mas do que eu calo, falo,
e agora já nem sei do que falo.


24 July 2011

O TERÇO




Para rezar o terço,
diminuí meu nome
que é tão extenso,
esse meu grosso nome...
Para rezar o terço,
diminuí meus braços,
que são tão extensos,
esses meus fortes braços...
Para rezar o terço,
diminuí os versos
e só falei de anseios,
de pedir perdão,
para murmurar as faltas
e eram tão ricas as minhas palavras!
Para rezar o terço
falei de mim
e quando falei de mim
reduzi-me a nada
Só a divindade espia
quando o terço cria
a linha de pecados
que a corda que expia.
Para falar de mim,
fugi de de mim
falei do terço
que arrebata,
e que acolhe
o meu nada,

23 July 2011

CANÇÃO DA PITANGA


O gosto da pitanga por debaixo da chuva fria,
o estremecer dela,
o anúncio da acidez e da doçura quando estia,
o ar fresco que morde a fruta
e o círculo vicioso da gratidão
ante o belo, o inevitável e da natureza, o grito.
Comer da fruta e digerir a vida.

21 July 2011

CANÇÃO DO TÉDIO



Oh, lenço amarrado ao pescoço que és tu, vida!
Assenta-me bem, mas que desconforto
em meio a este calor de fracassos e cismas!

19 July 2011

O TÍTULO DA ROSA


Este é o título da rosa que me destes: o desespero;
e este é o meu suspiro pela morte da rosa.
Viveu em si, vibrou-se,
adquiriu a cor escarlate de seu clímax
para depois enfiar-se no túnel escuro
e estrebuchar de dor e arrefecer-se.
O desespero angustiou-me a fala
quando a rosa seca já tinha
o único significado ao qual  se permitira.
Então, o título foi outro: o alívio.