07 May 2012

POEMA DA DESCONCERTAÇÃO



Também eu sei amassar amoras com desprezos.
Meu Deus, como é inconclusivo o trabalho de sentir do homem!
Às vezes etéreos sentimentos azuis,
às vezes insensibilidades em vestes negras!

QUE TUDO CRESÇA




Que tudo cresça na grama
na árvore e na nuvem...
Que tudo cresça para cima,
para além do conhecido;
que tudo cresça para o alto
no íntimo, no istmo do eu,
nos particulares do ostracismo.
Crescer é involuntário e insconsciente;
o pau do bambu desconhece sua altura.

ENQUANTO DURMO



O cataventos, as pipas,
algumas asas de águia,
o rio voador, as nuvens diáfanas,
eu encontrei enquanto dormia.
Acordo, e vejo somente concreto sobre o azul;
mas ainda acredito no limbo da memória.
Para cada coração que crê
há um risco de milagre...

POEMA DA MANHÃ


Entrei no pomar e achei que aquilo era felicidade.
As jabuticabas estouravam catarses
e o mamão leitoso sugeria vida,
e vida em abundância.
Quando eu era criancinha de peito,
as árvores exigiam respeito.
Mas hoje, justamente hoje,
quando o pomar é um punhadinho de árvores
e flores, e frutas isoladas,
compreendi que o tempo mina e mirra.
Mirrou-me. Minou-me. Mira-me.

18 April 2012

TENHO FOME



Tenho fome, tenho fome!
Foi-me dado o que comer
e de fato, desde pequenina
que me dão o que comer
e o que vestir, calçar,
e até enfeites para o vestir
e para o calçar
Mas tenho fome.
Dão-me o pão,
mas não aplaca-me a fome.
Dão-me doces, deram-me salgados,
deram-me as frutas que sazonaram
mas a fome que tenho,
nada e ninguém aplaca.
Nem o leite de minha mãe,
gorduroso e farto
bastou-me,
nem o salário de meu pai,
nem os ouros de meu marido,
nem o vínculo terno dos meus filhos,
nem a mortalha que me envolverá
aplacará a fome que ainda sinto.
Tenho fome insaciável,
que é fome que reside neste brejo,
estas paradas, nesta casa,
neste distrito, nesta mesa.
Minha fome é condenação eterna
de ter visto a luz, ter desejado ser luz
e luz não ter sido.

POEMETO



Temos nesta estação
um outono ameno,
tão diferente de outrora!
As árvores piam,
os pardais clorofilam-se,
o rio engolfa-se em si mesmo.
A natureza está dizendo que não
e eu me transmuto também em conflitos.
Eu era triste de dar dó,
agora eu vejo a vida
de binóculos.

13 April 2012

NEM TUDO É FELICIDADE




Nem tudo é felicidade;
a ave que cruza o céu,
tão bela em sincronicidade,
vem arrebentando o ar
com a força dos músculos
e com a grandeza da vontade.
Pois que não há felicidade
no vai e vem mecânico das ondas,
nem no coqueiro manso
que se distribui, tesudo
por debaixo do solo.
Nem tudo é felicidade;
e nem a felicidade é tudo.
Basta-nos viver cada dia,
condignos, desempenhando
cada um de nós o seu papel;
a ave que cruza o céu,
o vai e vem das ondas,
o coqueiro conformado,
tudo contribui para o cenário
de uma paz aparente,
mas impossível...
No esforço, não há paz;
Só há descanso no ócio.

10 April 2012

TUDO MORRE




Tudo morre;
morre a tarde, morre o sábio,
morre a suculência da carne.
Tudo morre,
tudo sublima, tudo transmuta...
Morre o pelo do gato
e morre o gato,
e só não é imorredoura
a visão fugidia do seu salto
(esplêndido, livre, sinuoso)
que venho guardando, incólume
por todos esses anos,
a habitar consensualmente a minha memória.
Aqui ele persisitirá, magnífico,
absurdamente vagaroso e belo,
a despejar uma leveza cívica, correta
lampejos de imortalidade e verdade,
na  perpetuidade viril desta imagem
que será assustadoramente vívida,
enquanto existo.

29 March 2012

CORRE, PEQUENINA



Corre deste mundo, pequenina,
corre!
Que a tua infância acaba
e lhe dá os mal assombrados,
onde tem dor e lascívia!!!
Corre deste mundo, pequenina,
corre!
Porque sua infância pouca
passará completamente
quer você corra,
quer pare
na esquina da resolução,
quer feche os olhos,
quer veja,
quer você mude,
quer não.

POETA




O poeta não é nada mais
do que aquele ser adultamente melancólico
buscando a criança que foi por debaixo da cama.

POEMA 1





De quando fui menina,
nem sarda restou
As palavras boas
que aprendi
deram-me luz e sapato de salto.
Se os gestos de menina
eram vigorosos,
foram apenas largos gestos para dentro de mim;
e hoje eu agarro as folhas mais altas
dos coqueiros imperiais que margeiam o rio.
No fundo, no fundo, tudo é ilusão...
Quem foi mais feliz, a menina sardenta
ou a mulher de agora que dança?
Ninguém sabe de felicidade, enquanto vive.

21 March 2012

CANÇÃO DE FAZER LEMBRAR



Era uma vez... um menino bonito...
(as notáveis histórias
sempre começam com "era uma vez"?)
E esse menino bonito tinha ficado encantado na minha memória
(encantado é quando
uma imagem congela-se ,
assim, para sempre,
e portanto, perpétua).
Tinha os cabelos anelados,
de uma cor cáqui
e sua alma  parecia uma nuvem
de tão purificada....
Passaram-se tantos dias e tantas noites,
os sonhos passaram, os pesadelos passaram,
as ruas ficaram mais largas,
os rios vomitaram peixes de tanta sujeira,
as nossas crianças nasceram, cresceram,
e o menino ali ficou, guardado,
caladinho e eterno
sentado à mesa da minha memória.
Um dia, assim sem mais nem menos,
o menino ressurgiu bem à minha frente
(trajava uma bermuda cáqui e uma camiseta branca,
tinha a barba e os cabelos brancos,
que eu tolamente pensava que fossem cáqui).
Tantos dias e tantas noites passando,
tantos sonhos passando, tantos pesadelos,
as ruas ficaram estreitas para tanto frisson,
que até os peixes elevaram-se da água
por causa desta graça.
O  menino bonito levantou-se, de repente da cadeira
à mesa da minha memória,
circunspecto, com sua barba branca,
e seus cabelos brancos,
e serviu-me o mais magnífico manjar,
o mais virtuoso prato,
a mais fiel de todas as comemorações;
que vem a ser, a sua alegre presença de agora...
Salve, meu Deus,  aquilo se preserva,
e salve tudo o que a memória guarda!

16 March 2012

POEMA PARA MEU AMOR



Um divino amor de gato,
ah, esse amor que  mata!
Lambe-me, mas
não come a minha alma;
deixa-me solta, a zoar,
libélula, na minha liberdade.
E se não me compreende,
se não canta comigo,
é porque compreende
a sua própria liberdade.
Somos dois em um,
como a marmelada e goiabada
eu, a marmelada....
Ah, esse amor divino,
meu gato e eu,
que me contou sobre as farsas
das estrelas e das cartas
Falou-me, sorridente
da ausência do divino
entre nós, tão venerado.
Falou-me das casas antigas,
das receitas caseiras tão antigas,
falou-me do nosso amor, também antigo,
até que, vencida, me calei,
por falta de palavra.
Ah, divino amor de gato,
que não me come as vísceras,
mas me mata!

HUMANIDADE



Um dia de menos,
uma humanidade apressada
e um passo pequeno para o futuro.
Somos todos e somos um
e justamente hoje,
que nada me vence
e que nada me arrasa
somente hoje,
descobri a humanidade
que em mim reside:
a falta de vontade,
e coragem para nada.

23 January 2012

POEMA PARA O AMOR DE VOLTA


Entramos no mar...
Uma gota perolada do seu suor
bateu na água qual fruta sazonada.
Não se aguentou de tanta madureza
e de tanta espera,
tal qual fora esse meu amor
que de adiamentos, que de ambições,
que de promessas esgarçadas,
que de graças postergadas,
subitamente, bateu no seu amor,
que me aguardava, tenso,
como o mar que entráramos
e fez do meu mergulho em sua roda,
uma partida suicida só de ida,
para aquilo que em vida
eu chamei de volta.