13 June 2009

POEMA DO NÃO FALAR DEMAIS


Hoje não falaremos demais,
deixemos que o peso do universo fale,
que os passarinhos falem,
que a mesa esticada da cozinha dê seus apartes
que as paredes confessem,
que os quadros supliquem,
e que fiquemos assim,
contemplando o presente momento
da forma como ele é;
silente, inócuo, pobre,
como aquele que tudo vê

e nada sente.

11 June 2009

MIL POSTAGENS

Hoje eu completo mil publicações no meu Pé de Pitanga.
Pouquíssimas idéias alheias,
quase tudo saiu desse coração
que pede e suplica sossego,
e que a poesia remonta em frases e pensamentos.
Tenho tanto a dizer e nada a acrescentar,
e quando quero me rever,
me leio.

MULHER NUA


Eu estou uma mulher nua
Nua nasci, e nua
a vida me recompensará.
Quando me olhares, de perto
verás as frases doidas
que me escrevi no avesso.
Sou o que sou;
eu não me minto.
Quando a mentira natural me abraçou
feriu-me como faísca no asfalto
e me marcou;
e se me cobri de farsas,
foi porque morri.
E morta eu não estou.

SOLIDÃO RUPESTRE


Eu escrevo demais,
e mesmo assim, penso que nunca digo tudo.
Aquilo que está entalhado em mim
é a paisagem rupestre da minha solidão
que quando julgo esquecida;
revela-me mais.

NÃO VAI PASSAR


Todos me dizem, sorrrindo,
com o tempo, passará.
O tempo me diz, baixinho,
se eu não passei ainda
é porque não vou passar.

10 June 2009

TUDO É BELEZA


Tudo é beleza.
A água que caiu do copo
e agora está ao chão,
é beleza.
O copo, que sem a água
vejo sobre a mesa,
é a pura beleza da falta,
e ainda assim,
traz a beleza da essência.

BATATADAS


A maior bobagem que um ser humano deva pensar
é que ele possa se saber um vencedor, ou perdedor.
Não somos nem vencedores,
muito menos perdedores.
Somos como aquele homem,
que em meio à uma oração
de agradecimento ao seu deus,
tão enaltecidamente superior
sofreu um ataque
em seu coração, fulminante,
e então, foi-se.
Não sofreu minutos antes desse ataque,
tampouco sofreu à hora da dilaceração.
O tempo entre um gozo
e um final de gozo é efêmero
Para se medir esse tempo,
era preciso que estivéssemos fora de nós mesmos
ou fora deste mundo, onde todos somos iguais.
Ao vencedor, as batatas,
aos vencidos, nem ódio, nem compaixão;
apenas as batatadas.

DESPREPARADA PARA A VIDA


Estou despreparada para a vida, vida,
e se eu me preparar,
e se eu lhe jurar agora que vou me preparar,
você muda meu olhar para o ângulo dos comuns
e me vivifica?
Se morta estou para o entrave,
viva estou para a saída.

09 June 2009

DIA DE LAVAR ROUPA


Hoje é dia de lavar roupa;
entretanto, eu não fiz nada,
estou de alma lavada.

08 June 2009

LEVA-ME PARA CASA



Negrinho do pastoreio, leva-me para casa,
para a quentura do fogão que rescenda à lenha,
aquecendo minha fartura e meus quadris quadrados.

Iemanjá das águas, leva-me para casa,
para as deliciosas refrescâncias das marolas,
que resultem num azul-luz,
alumiando-me a ponta do espírito
e aquilo que julguei perdido, revelado.

Curumim menino, da lenda do Guaraná,
leva-me para casa,
qual seja à floresta dos Parintins
ou à inquietação da fortuna das paisagens,
alimentando-me de sonhos castos, de bobagens...

Caiporas, índios, caboclos,
Levem-me logo para casa;
Levem-me para o lugar a que pertenço, garantida,
sobremagia, encantamento, mentira de viver,
ilusão do que se é,
ou do delírio assombroso de que eu precisava.

Não pertenço a esse mundo de bravatas
tampouco ao cheiro artifície do anil de Marabá
Leva-me de volta para casa, Boi tatá,
lá por dentro, no escuro da invenção
é que me acho despida e acautelada.

Leva-me e não permita que resgatem-me;
O ouro que encontrarei de volta em minha casa
será o divertimento que terei em deixar esta pousada.

Quando não nos pertencemos, é claro que partimos
e se partimos, é claro que lembramos de mais nada.
Leva-me para casa, Iara de olhos negros,
esquecerei-me de imediato daquilo que vivi,
perdida, infeliz, tangível e deslocada.


O QUE ME PASSA?


O que me passa, o que me passa?
Onde estão as ararinhas azuis
que eu perseguia,
onde está o avental de tecido azul ,
sujo de massa,
onde foram parar as essências
amareladas de hortelã
que acondicionei por dentro do armário?
Hoje amanheceu, mas não amanheceu,
sabe como é quando amanhece para toda gente,
e as pessoas circulam,
meticulosas, na limpeza da casa,
nas compras pequenas,
nos pagamentos devidos para cada dia,
naquela atividade da tagarelice
alegre e tola?
Entretanto, para mim,
ainda é aquela sexta feira;
a noite uiva à fresta da minha janela,
os carros perfilam, cuidadosos,
arrastados pelo frio,
os barulhos já não são mais de alegria
e um silêncio fino que cimenta meu espírito
também me cala.
O que se passa no mundo que eu não sei?
Essa pergunta levanta ondas e persiste,
me azucrinando os dois ouvidos
quando nenhuma resposta me vem
para consolar as minhas carnes
já frias e já desanimadas.
Se eu sorrio,
é um sorriso de sexta feira
e se eu choro,
é um choro para a semana que virá.
O que me passa?
Longe de mim,
estão as vissicitudes do dia
Perto, porém,
está a realidade minha
que é o atempo, o antigo,
a antítese do acalcinar.
Não sou triste; não estou triste;
nunca serei triste,
sou apenas a metade do que já fui
e a metade do que a vida ainda me fará.


07 June 2009

POEMA DO AMOR CONFORTADO


Bebo este chá como quem bebe sôfrego
o sal buscando o iodo
de algum oceano salgado

O que sobeja, eu amo;

do que me falta, não falta,

nem de volta eu clamo ou chamo.

04 June 2009

DOADOR


A minha vida é uma pequena chave
fina e enferrujada;
certo é que abriu trancas e ferrolhos
e seu segredo compreendeu a muitos,
e na aceitação destes muitos, alargou-se.

É meu destino abrir as travancas
e arrebentar prisões;
Só eu me encontro fechada,
reduzida e muda
a cumprir meu papel de liberdade.
Na ânsia de viver alheia, um doador.



03 June 2009

MULHER DE FLORES


Nunca fui uma mulher de flores
nem das pétalas, nem dos espinhos.
Quem sabe seria eu uma mulher das ramagens
do salpico de chuva de prata
ou do ramo, às folhas ordinárias?

O que é pequeno, ou acessório,
é o que me sei
e o que me cabe.

01 June 2009

DESCORTINA



Poema por Carlos Roberto Ferriani
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As horas,
em que pese o tempo,
alento de quem vive
ou a solidão de quem sabe,
apenas passam
nao sem porto
e nem sem novas auroras.

Saudades,
em que rezem os dias,
vazios de luzes míticas
ou momentos onde paixões transpiram,
apenas marcam,
não sem aspas,
e nem nas duas metades.

Esquinas,
em que mudem os rumos,
inúmeros vãos da vida,
ou desejos de luz, escondidos,
apenas giram,
não sem ventos,
e nem sem as rotinas.

As horas... saudades... esquinas,
apenas passam,
apenas marcam,
apenas giram
e nem sem novas auroras
e nem nas duas metades
e nem sem as rotinas