17 February 2007

CINQÜENTA


A saudade que me alentava
Danou-se;
O verso manco que eu fazia
Como minha mãe fazia doces,
Remexendo a calda,

Lentamente, para não desandar
Esse também já se foi,
Toda a maldade do mundo que comi
Arrefeceu-se, feito o doce desandado
Tenra idade para se começar a viver, Ceci
Ainda mais cinqüenta haverão de vir;
Cinqüenta verões tão tórridos como este
Cinqüenta estações de bananas da terra,

Novinhas, brotando no quintal
Cinqüenta foguetórios em noite de São João
Cinqüenta São Joãos de frio e pura luz,
Cinqüenta contas de terço bem rezados
Cinqüenta carimbos no meu passaporte em busca de destino
Sobre a minha fotografia refrescada
E surpreendentemente renovada
Resta-se para viver a meia corda de fumo
Enrolada sobre o balcão oleoso e escuro do armazém
Que eu própria picarei, caprichosamente,

E hei de enrolar, agora sem pressa alguma,
Em meio à palha fina, cortada e conquistada
A cada dia desses cinqüenta que passarem.

3 comments:

André said...

Olá, Pé de pitanga!

belo esse seu texto, pleno de imagens e deste sentimento que só quem conhece os cinqüenta é que pode dizer.

Valeu!

André said...

Pois é, Cecília, tanto procurei que achei. Foi neste texto aqui que travei contato com a tua literatura. Isso foi em novembro de 2008.

E encantei-me com esse texto dos teus 50 anos, assim como com outros textos teus que vinha ler de tempos em tempos.

A sua poesia me lembra muito a prosa da Lispector e, creia-me, não há exagêro algum no que eu te digo. O gozado é que eu não sou um admirador da Clarisse... mas gosto da prosa poética da Cecília! :-)

Como podes ver, eu sou um leitor teu já de algum tempinho...

Uma boa semana para ti, meu abraço e meu carinho.

André

André said...

Perdoe-me pela pouca delicadeza em tê-la chamado pelo título do seu blog, mas é que eu sou realmente muito, infelizmente, muito distraído e não conseguia achar o seu nome...

Espero que não me queira mal.