27 April 2008

É PRECISO MATAR CLARICE


Daqui, onde estou sentado, vejo-a preparar o almoço. Tem um corpo leve, fino, os ombros estão descansados. Anda como se pensasse que estivesse sozinha, e olha sempre para o chão procurando alguma imundície enquanto se movimenta. Imagino o que vá fazer com o tomate. O barulho da torneira da pia é infernal para mim; ela lava e relava esse tomate como se ele devesse tomar um banho dos humanos; acho um exagero a forma como ela se dedica às coisas, esse jeito profissional de cuidar de algo simples, como varrer a casa.

Passou por aqui agora há pouco e me deu um sorrisinho de quem sabia que eu a ignoro. Eu tento também me concentrar no dia frio lá fora, penso no livro que precisarei escrever até o final do ano, as minhas idéias todas se embaralham quando chego no destino que darei às personagens.

Ela passou de novo e levantou a cortina da sala com a energia de quem tem só meio dia para resolver uma vida inteira.

- Quer café?

- Não, obrigado, vai me tirar a fome.

- Hum... quer refresco?

- Nao, não, obrigado, vai me tirar a fome.

Pronto, já voltou para a reunião das panelas.

Sinto um cheiro de alguma coisa cozinhando em panela aberta, suponho que deva estar jogando pitadas de sal e se ruborizando, enquanto prova a comida com a mesma colher que vai novamente enfiar no molho.

Que destino eu daria à minha personagem Clarice? Se mato alguém como Clarice, mato meu fio condutor da história, e se não a mato, o que faço com as vaidades dela, aquela arrogância de madame Bovary, aqueles ares aristocráticos que nem a mim atraem? Quem queria ficar com Clarice?

- O almoço sai em 15 minutos.

- Hum... falo, assentando com a cabeça. Por 15 minutos darei à minha personagem um destino decente... viajar para Estocolmo... hum... talvez encontrasse alguém em Estocolmo, alguém como ela, um aristrocrata falido, cheio de ares, cheio de ...

- Que tal uma caipirinha, antes do almoço?

- Não, obrigado, vai me tirar a fome....

- Tudo lhe tira a fome? Está com tanta fome assim? Porque não tomou o café da manhã direito? Porque não se cuida? Porque não faz como todo mundo, levanta-se toma café com leite, pão, manteiga, alguma fruta, quem sabe uma granola...

- Hã, hã...
Estou com os olhos grudados no papel, meus ouvidos estão se rebelando, eu eu preciso me controlar. Ah, sim, Clarice... está meio velha demais para se aventurar com moços de Estocolmo, teria que ser um velhote aristocrata, desses que...

- Depois acho que você devia ir ao médico e rever suas taxas, esse tempo que passa em cima desse livro é muito desgastante, não tem hora, não tem disciplina, não se exercita...

Levanto de onde estou com dificuldade, minhas pernas tremem de emotividade; alguém como ela para me enxovalhar antes do almoço, me encher das regras alheias, me vasculhar e me interroper o pensamento. Logo agora que eu deveria achar um destino para Clarice.... Pode ser que o velhote seja um sádico, que tenha prazer em enxovalhar Clarice e ela, por sua vez...

- ... Tenho falado com Dr. Pretzel sobre você... uma pessoa sedentária.
S-E-D-E-N-T-Á-R-I-A. Quando fez sua caminhada pela última vez? Acho que foi no ano passado, quando fomos ver se tinha limão no terreno debaixo. Quando usou a esteira que está aqui, criando pó??? Você é um impulsivo, comprou a esteira e nem teve a curiosidade de saber se é 110 ou 220. Se não fosse eu a colocar para funcionar de vez em quando....

Faço menção de ir ao banheiro, ela me corta a passagem.

- E depois, tem a bebidinha da noite, não é? Se o sono não vem, é a bebidinha que resolve o sono. Você acha isso certo?

Exibo um sorriso cortês. Arrisco:

- Vamos almoçar, meu bem?
Ela vai à frente, ainda está falando sem respirar. Penso em Clarice, falando também com o recém entrado no livro, cheio de aristocracias, mas no fundinho, um sujeito estranho, com desvios. Clarice no primeiro encontro já pode ir se justificando por ser tão..., tão o quê? ah... tão perfeita e nem escondendo que pensa que é perfeita... o recém chegado fica como eu assim, embasbacado diante de tanta palavra mal colocada em hora mais imprópria ainda... Já sei, estarão num vagão de trem...

- Quer carne?

- Ah?

- Carne, carne!!! Ela está um pouco mais nervosa.

- Ah, quero, sim... meu sorrisinho de plantão se abre de novo, não gosto de contrariá-la, ela me mandaria para o inferno em poucos segundos.

- É carne de porco, meu bem... Está um pouco dura, precisei fazer fora da pressão, a panela que eu usava se acabou, caiu cabo, a borracha arrebentou... bem que pensei que você fosse me trazer uma nova quando saiu na sexta feira, deixei dois bilhetinhos para você, um no banheiro e outro na sua carteira.

- Ah, sim... me desculpe. Quando cheguei à cidade, esqueci completamente, não usei a carteira, foi isso.

- Não acha que está se desviando da vida comum e se tornando uma pessoa anti-social?

- Anti-social???? Porque não comprei uma panela de pressão?

- Lógico, a pessoa vai vivendo uma realidade irreal, sabe? Como a do seu livro.. então perde o controle da vida prática...

De onde ela tirou isso, nem imagino. Acho melhor sorrir de novo.

Ela já fez meu prato, dispôs a carne de porco, arroz e os tomates torturados e lavados, numa pirâmede disforme. Não gosto que façam meu prato; ela tem adoração por isso, acha que está cuidando de mim quando amontoa tudo numa disposição de lugares que eu jamais faria.

- Pessoas anti-sociais não falam às refeições.

Aí é que emudeço e fico olhando bem alguns longos segundos para o rosto dela, tentando compreender algum traço da piada. Ela está contrita e dura.

- E normalmente não falam depois das refeições também, só dizem bom dia, boa tarde e boa noite.

Penso em Clarice novamente, em Estocolmo, falando assim com o recém chegado aristrocrata da história. O que diria ele? Se é um aristrocrata, jamais cometeria uma deselegância...

- Escutou?

Pulo de medo.

- O quê?

- O que eu falei.

- Sei.

- Sei o quê?

- Que você está certa.

Pego a faca e o garfo com decisão e agora destrincho a carne dura do que foi um porco um dia com a selvageria dos aborígenes. Mato ali mesmo Clarice, tiro-lhe os buchos de fora, arranco-lhe febrilmente os olhos arregalados, o aristrocrata bobo se remexe de tanta alegria...

Olho de soslaio para ela. Pelo meu ato, impetuoso, assassino, ela foi se calando, se calando... até que sorriu também. Um sorriso de quem viu finalmente em mim uma tímida reação dos anti-sociais recuperados.

Já sei, depois do almoço, mato Clarice de novo.
É preciso matar Clarice, essa personalidade rebolante e castradora precisa morrer e bem matada. E dane-se a condução da história.





2 comments:

ZAZÁ LEE said...
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ZAZÁ LEE said...

Dói-me pensar, que alguém que tenta fazer algo, está sendo incomodado por outro.
Acontece com frequência nos dias de hoje a todo instante, em todo tipo de lugar.
Dói-me principalmente, porque observo, que aquele que deseja matar, na verdade, é um contraditório.
Não quer , não deseja o compartilhamento, é o Ego que grita e grita.
E o Ego quer matar todos os dias aquele que incomoda.
Isto dói.