11 May 2008

UM SOL DE VERDADE


Todos nós que moramos na Casa do Sete Grilos às vezes nos odiamos e às vezes nos toleramos. Mais nos odiamos.
Moramos juntos, ao todo somos nove, contando comigo, que nem devia contar, sou o que menos fala, o único que não reclama e o mais tolerante com as esquisitices dos outros.

Há três mulheres, Maria da Gaça, uma gordotinha que já deve ter sido loira, embora seus cabelos já estejam integralmente brancos, ondulados, cabelo curto e inferior. As outras duas são irmãs, de pais diferentes, e são diferentes em tudo. Uma é morena, Ceição, de pele encardida , um pouco de buço, a outra, Solange, é feia de dar dó, branquela e magrelinha, da canela bem fininha e tem a voz rachada, mas não se toca, fala um dia inteiro por nós.

Os homens da casa são porcos, imundos. Golias e Pimentel são os mais transtornados; mijam prá fora do vaso e nem sequer respeitam mulher, saem do banheiro chapinhando em cima do próprio mijo, assoam o nariz no dedo e saem pingando a porcaria.
Zé Pedro, Silvino e João Barbosa, os mais velhos. Os mais boçais. João Barbosa se deita com Maria da Graça, e estuga sobre ela, resfolegando; ela ri e debocha dele. Ponho minhas duas mãos por sobre meus ouvidos até que tudo aquilo cesse, e que caiam duros, cada um para o seu lado, para dentro do sono.

Me irrito com Silvino, que é preto e fedido e nunca foi bom. Rouba nas cartas e faz papel de louco quando a gente discute feio. Para não perder, finge que caduca e eu fico falando sozinho.

Toda terça feira é dia de visita, mas não vem ninguém. Vez ou outra encosta um carro e assistentes sociais vêm ter com a gente. É um porre só. Mexem em tudo; quando tem moças de estágio, essas é que são maneiras, umas mocinhas afetadinhas, esmeradinhas, que ralham pernosticamente conosco. Falam em banho, falam em solidariedade. Nós nos sabemos solidários, sabemos das nossas dores, então fingimos que escutamos. Eu finjo mais, aceno a cabeça afirmativamente, no intimo, quero que todos se matem.

Faz tempo que não sei o que é visita para mim. Quando minha mãe era viva, trazia com ela a Soraia. Depois que morreu, Soraia deve ter caído no mundo e nem se recorda que tem um irmão aqui.

Da última vez que a mãe veio, trouxe uma caixa de biscoito recheado e uma manta barata, listrada de verde e azul. Desconfio que foi Silvino que sumiu com ela já no dia seguinte.

O sumiço de minha mãe depois desse dia foi igual ao da manta; tanto tempo se passou, eu me perguntava cá por dentro onde ela tinha ido parar. Chegou carta avisando da morte.

Chorei. Um choro por dentro, doeu demais. Ninguém aqui percebeu a minha aflição e também nâo houve uma viva alma para me perguntar sobre o paradeiro da mãe e da irmã. Aqui é assim, alegria não conta, tristeza também não conta.

E havia Stella também para me visitar a lembrança. Stella que me acendeu um fogo de homem um dia, Stella que era a luz que eu não possuía, nem jamais me atrevi a ter.
Stella era absurdamente pernas longas e fortes. Era um sorriso de cristal, puro, azul, diáfano, um grito na minha garganta diante da sua suavidade e da sua força de cadela.
Penso em Stella e ainda corro montes.; sou o caçador sensível que respira a presa se Stella está no ar.

O amante que eu fôra para ela, fôra diminuto e fraco; para mim no entanto, nunca havia sido pouco; rosas não bastaram, um jardim inteiro de flores e cascatas não lhe bastou. Se fosse de muitos, ainda seria a minha Stella, tonta, infantil, sobeja...

Fiz-me de um tudo por ela, e se roubei, roubei de forma bem roubada, e se menti, cada vão da mentira me redimiu.
Tivesse eu um sol de presente, sairia ela do seu banho, fresca e úmida, fria, fazendo o muxoxo das stellas, diria-me que foi tão pouco um sol que lhe fôra dado, eu a me sufocar, sofrendo, que tipo de sol ainda haveria de existir para que lhe fosse buscado.
Suas exigências foram apertando o meu círculo, já tão exíguo de atuação.

- Sol, meu carinho, dê-me um sol de verdade!

Lá ia eu, a delinear aquilo que o sol de verdade lhe refletisse a face. Seus cabelos, semelhantes à crina dos cavalos, me ordenavam:

- Um sol, mas que seja de verdade!

Por ela, somente por ela, por sua pele de moça branca que não registrava luz, por suas mãozinhas finas que percorriam meu pescoço à hora do meu amor mais louco, mais deliciado, por sua voz rouca, marcada a conhaque dispendioso que eu lhe comprava, por sua mentira santa, santinha, mentirinha para não doer a verdade, por ela me adulterei e por ela me assoberbei.

No dia 25 de Março de 1968, quarta feira, 3 horas da tarde, venho ver Stella. Não sou tão moço mais, todavia, tenho um coração oscilado dentro do peito másculo.

Sinto um desejo por ela que começou desde sempre. Minhas pernas tremem e querem envolver-lhe o corpo, juntá-lo ao meu, anulá-lo ao meu... Beijarei seu dorso como se beijasse a santa que enfeita o altarzinho de casa, coroada, emantoada, cega...

Se bato à porta, ela perde a naturalidade. Entro como um tufão, meu desejo é o do cachorro de rua, sôfrego e esfaimado.

Os dois vultos sobre a cama se desvencilharam. Houve ainda tempo para um gemido, que eu supus que viesse daquele que por cima, se desmanchava em fluido.

O ar cheirava à falta de castidade; cheiro de ocre e cheiro de peixe inundava o quarto. Era uma obscuridade que perpetrava o mal.

Meu sentimento foi de um desapontamento titã. Stella das pernas estiradas, os seios redondos à minha cara, aquele sorriso de antes agora executado de forma mecânica, feia, manchada...

- Vai embora, covarde!

Pega em surpresa, o que ela haveria de fazer a não ser judiar de mim?

- Te perdôo, Stella!

O segundo vulto passou como um projétil e ganhou a rua. Não me importei com o tipo. Importei-me com ela, com o ar agora rude e marcado que ela colocara na face, e as mãos ríspidas, hirtas, segurando o lençol à volta do corpo.

- Acabou, Morales, acabou. Já tenho outro homem! Um homem melhor que tu!

- Te perdôo, Stella!

Eu só sabia repetir esse estribilho... Me pareceu que esse refrão havia nascido comigo, e eu perdoando Stella desde meu primeiro dia.

- Já não te amo mais, nunca te amei de fato. És um fraco, Morales...

Não sei se me ajoelhei, não sei se me deitei, não sei se me desapareci para que ela crescesse naquele momento e que eu incalculavelmente, a perdoasse. Ela me sorriria, longa e linda, me falaria de adoração, dos seus erros de guria, eu a perdoaria mais de oitocentas mil vezes e a traria de volta para meu peito que ela chama de covarde.

- Fala que me ama, Stella! eu pedia.

- Já nao te amo mais. Sai, covarde!

- E a minha vida, Stella? E os nossos desejos de carne, de amantes desesperados? O que será das minhas pernas, essas minhas pernas sem as suas pernas , Stella? Minha boca nao come sem a sua!

- És um fraco!

Ela falava forçado, arrumou uma maneira de usar a polidez da segunda pessoa contra a minha pessoa de certidão perdoadora. Se eu a estava absolvendo, ela me conduzia ao campo da batalha.

- Nunca que te quero de volta!

Cadê o sorriso da minha Stella, cadê a sua suavidade em me pedir o sol?

Se houve um sol ao qual foi dado à ela, este nasceu em mim naquele momento, vindo das minhas entranhas onde queimava a dor.

Minutos depois, quando o corpo dela foi encontrado na rua, atirada, a cabeça ensaguentada e a pele fria, inerte, os olhos esbugalhados, compreendi a missão da minha vida; a de amar uma criatura de forma congruente, que se já não é mais parte do meu eu, meu eu liberta.

Entreguei-me aos policiais que me encontraram, de pé, junto à janela do sobrado, de forma apaziguada e consentida, olhando fixamente para o nada.

Vinte e dois anos preso numa cela sórdida e Stella valeu cada dia contado.

Quando saí, e vi o sol, ela ainda era uma lembrança pálida da minha insanidade.

Mãe e Soraia me trouxeram para esta casa de pessoas recuperáveis. Mato-me todos os dias de vontade de entender o que é ser recuperável no meio de gente irrisória e suja, que viveu a vida sem conhecer Stella, sem provar de Stella, sem comê-la, sem mastigá-la.

Entretanto, de manhã, às cinco da madrugada, se o galo canta no terreno, por dentro da minha taciturnidade, Stella ainda canta por dentro de mim.

O dia passa feito a lesma luzidia que marca o chão; é Stella até agora brincando de amar comigo, somente minha, ventilada e verde por sobre meu colchão...

Porque lhe perdoei, mulher, porque lhe perdoarei, perdôo-me, portanto.

Sua fotografia vaza-me os olhos; na imundíce de Golias, na fala de Ceição, nas risadinhas pervertidas de Graça, nas caricatas mocinhas da terça, não há o que lhe suplante a sua lindeza, mesmo caída sobre o asfalto sujo do seu sangue da insígnia de falsa pureza. . .
Sol de verdade, eu lhe dei no momento da sua fraqueza e por dentro da minha covardia...
O que você não sabia, Stella, e que tanto me pedia, e que somente eu sabia, é que um sol de verdade era somente a sua libertação.






5 comments:

Clarissa said...

è o orgulho da familia!!
Mas ainda prefiro o da Marinalva!!!

ZAZÁ LEE said...

Excelente...

Fiquei envolvida pela narrativa e imaginando o protagonista, que anda por aí, neste mundo, por tudo quanto é canto.

Parabéns Cecília.
Está caminhando muito bem pelos caminhos a que se propôs.

ZAZÁ LEE said...

Li de novo.

ZAZÁ LEE said...

Eu ia postar mas é muito longo para a identidade do Espelho Sem Aço.

ZAZÁ LEE said...

Li de novo