16 March 2009

PARA GOSTAR DE LER


Eu já gostei de ler. Já adorei ler. Penso como é incrível a força que o verbo "adorar" tem. Eu digo que "adorava ler" e você me compreende na extensão da força e do termo apaixonado.
Pois ler era para mim a comida do prato e o sono da madrugada, imprescindíveis. Gosto de pensar que nasci lendo... minha mãe me aleitando, e eu, com dias de vida, e de olhos enrabichados no jornal por sobre o sofá...
Ainda bem menina, li o que viesse; jornal, revista, almanaque do biotônico, poesia rimada, pensamentos dos cadernos alheios, romance proibido, romance permitido, até as leituras mais pesadas, impróprias para a minha idade, como os livros que meu pai lia, de Pearl Buck, com narrativa engenhosa sobre os costumes e personagens pesarosos da China, de paisagens de campos de arroz e de descrição das fétidas comidas armazenadas. Tenho ainda em mim as sensações vibrantes face às picantes passagens de O Amante de Lady Chaterley, de DH Lawrence, que continham um erotismo rasgado e simultaneamente enamorado para as minhas ainda inexistentes experiências de sexualidade .
Um dia a velha senhora chegou... a idade dos óculos de grau. Cegou-me para a leitura.
Passei a enojar ter que vestir um par de massas de vidro dentro. Meu ar de graça rodopiou-se, fiquei uma coruja bi-glassada, de olhos curtos, de mente enviesada, a narrow-minded das literaturas nacionais e importadas.
O embaço das retinas fez comigo o que Deus fez com o Mar Vermelho de Moisés... dividiu-me ao meio. Ainda era preciso ler, mas a leitura ficou um bicho seletivo e velho, preguiçoso... só queria ler o que fosse rápido, o que fosse mastigável e instantâneo.
Isso vai me levar quantos dias de leitura? Três? Então não leio, e em vez disso, leio a barra codificada do achocolatado que me adverte do preço.
Entretanto, aquele que me ama, me advertiu, sereno: "Acho que você lê tão pouco..."
Não me ofendi, como pensariam alguns... uma discípula de letras como eu, não se ofende por causa das letras, nem por falta delas, posto que as letras estão em mim... contudo, meu orgulho de poeta refratrário me espetou o espírito.
Hoje fui visitar meus velhos livros de amor. De amor, mas não necessariamente românticos. Um amor que lhes foi dedicado, e que eu, como um marido farto, abandonei, fingindo que ia comprar cigarros. Devo ter dito aos livros: "olhe, vou até ali, mas volto já", e nunca que voltei mais.
Nao foi um tempo delicioso que passei distante dos meus livros (centenas, com certeza, todos aqui, constantes e enfileiradinhos).
Foi um tempo árido esse em que fiquei distante, tempo em que construí sobre areias, um barraco de sal. Tempo de movediça e tempo de resgate. Um tempo que passei a discutir comigo mesma o que vejo que foi indiscutível, a falar comigo mesma em frente ao espelho, narcisa e incapaz, e vez ou outra, escutar lânguidamente os outros; tempo de saber e depois descobrir que não sabia coisa alguma que me fosse útil, tempo de discutir as relações com as pessoas e me encontrar, de súbito, sem as pessoas e sem compreender as relações, e principalmente, eu mesma, em meio às pessoas.

Penso que deixei de ler porquê me julguei mais sapiente do que o sábio, mais luz do que o iluminador, mais forte do que a motriz da força. Meu engano não foi parcial nem medial; foi inteiro.

Quem me disse o que me disse estava convicto do que dizia: quem lê não pode e não deve ser traído, nem iludido, muito menos enganado, ou pelo autor, ou pelas personagens (as vezes somos enganados conosco mesmos na leitura, mas isso é quando achamos que a história é parecida com a nossa história; mas isso é bobagem; nenhuma história é igual e ninguém nem nada, se compara a coisa alguma).

Por isso, hoje retomei a visita aos livros, o que me fez um bem danado... Chego a esboçar um sorriso agora quando me lembro que peguei em minhas mãos o livro que ganhei de presente de minha mãe num Natal, o de Cecília Meirelles, poesias selecionadas. Nele Cecília falava de uma solidão interminável, e neste momento, tive a certeira intuição de que nem pude entender de solidão naquele Natal lá trás, a solidão em seu estado puro, gênese da humanidade e particularmente a minha que vivo. Hoje a solidão de Cecília é curiosamente a mesma solidão desta Cecília de já.
"Imensas noites de Inverno, com frias montanhas mudas, é o mar negro, mais eterno, mais terrível, mais profundo."

Para gostar de ler, é preciso roubar a alma do outro, é preciso coabitar dentro do hábito daquele que escreve, bater o próprio coração ritmado naquele coração que bateu bem à hora da escrita... é preciso ter fôlego de gato, vencer as páginas com a visão do fim, saborear o entremeio com sofreguidão e curiosidade, precipitar a antevisão frente à conclusão, e afinal, bater capa com capa e dizer: "Valeu".
Faço neste momento, um pedido de perdão a N. Sa. da Leitura, que como tantas Nossas Senhoras, de igual misericórdia, por ter me retirado os nós deste ato nobilíssimo e superior, que é o de me debruçar sobre as páginas dos pensamentos alheios.
Muito se aprende com os outros, disse-me um terapeuta de ocasião... Deve ser verdade, se não o fosse, os livros não estariam sendo publicados, e conforme todos já sabem, nosso país que já lê tão diminutamente, não leria jamais. E neste momento, também nenhuma alma me leria, como está lendo neste momento, o que muito me enternece e grandemente me responsabiliza.

E a leitura não obrigatória também nos leva a lugares que jamais visitaríamos se não estivessemos dentro da história daquele escritor. Viajar de graça, sem sair do lugar e sem precisar fazer malas também é um negócio incrível, posto que a viagem é alheia, mas para aquele que a lê, as imaginações sempre serão as nossas, o que me dá uma sensação especial de produtor de cinema ou diretor de arte. Coisa incrível é mexer com o mundo imaginário, e se os séculos se passarem e eu ainda estiver aqui, gostarei de saber que fui a coordenadora de minhas próprias imagens do mundo que passou, que é, e que ainda virá a existir.

Gostarei de ler novamente; sou aquele filho pródigo das quintas rurais que suplica, com humildade a seu pai, uma nova oportunidade, e este, soberano em sua bondade, manda que venham os anéis de ouro, a manta bordada, as sandálias de couro.
Leitura de discernimento, que me encherá novamente dos meus mais ricos bens; dela preciso do benefício dos aromas de conhecimento breves, das sabedorias que só se encontram depois de uma busca até a clausura, do desvendar das frases em cortejo pela iluminação das idéias, e da consolação do tempo que passou, perdido.

E que venham as crônicas saborosas de Rubem Alves, os contos densos de Lispector, que venham novamente os sermões de Padre Vieira, as distorções de Kant, os ricos ensejos de Kafka, as narrativas enternecedoras de Paulo Mendes Campos como a primorosa " Para Maria da Graça", o punho genial de vernáculos inventados de Guimarães Rosa e a releitura de Clarissa, que Veríssimo me despertou em infância, e que marcou tanto, a ponto de desejar na inverdade, um amor pueril e franco.

Para gostar de ler, não é preciso apenas tempo. Nem dinheiro. Nem entusiasmo.
É preciso apenas se despir da presunção e se vestir da coragem da humildade.

1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Lindíssimo texto!
Só não o publico pois é longo para o lay-out do Espelho Sem Aço.