18 April 2012

TENHO FOME



Tenho fome, tenho fome!
Foi-me dado o que comer
e de fato, desde pequenina
que me dão o que comer
e o que vestir, calçar,
e até enfeites para o vestir
e para o calçar
Mas tenho fome.
Dão-me o pão,
mas não aplaca-me a fome.
Dão-me doces, deram-me salgados,
deram-me as frutas que sazonaram
mas a fome que tenho,
nada e ninguém aplaca.
Nem o leite de minha mãe,
gorduroso e farto
bastou-me,
nem o salário de meu pai,
nem os ouros de meu marido,
nem o vínculo terno dos meus filhos,
nem a mortalha que me envolverá
aplacará a fome que ainda sinto.
Tenho fome insaciável,
que é fome que reside neste brejo,
estas paradas, nesta casa,
neste distrito, nesta mesa.
Minha fome é condenação eterna
de ter visto a luz, ter desejado ser luz
e luz não ter sido.

3 comments:

Sotnas said...

Olá Cecília, que tudo esteja bem contigo!


E cá estou refestelado sob teu Pé de Pitanga lendo encantado teu belo escrito que faz pensar que todos temos uma fome não saciada, acredito que faça parte da cultura humana ser assim tão insaciável.

Fico contente que tenha voltado.

Agradecido por tuas visitas e amizade, desejo que você e todos ao redor tenham um viver intenso e feliz

André said...
This comment has been removed by the author.
Zazá said...

Maravilhoso!