28 August 2006

A CASA DOS CHEIROS


Uma vez por ano, passávamos as férias na casa de minha avó materna.
Mamãe, por ocasião da visita anual, costumava deixar um ou dois filhos, cumprindo a profecia das composições escolares, para tornar a buscá-los semanas depois.

A casa de minha avó tinha um caráter austero; simples, elegante, limpa, e ao mesmo tempo, superior e arrogante: impressionava. Comprida, pé direito alto, corredor que levava ao além da vida, uma passadeira bem cuidada conduzindo ao ponto cardeal extremado da casa : banheiro, cozinha e quintal.
Este mesmo corredor, próximo ao burburinho, ostentava a única modernidade que a casa poderia suportar: duas geladeiras robustas, barulhentas, de motor inquieto, com maçanetas lembrando porta de “ford” velho – uma para as comilanças de todo o dia, e a outra, entupidinha de doces caseiros, cidra, abóbora com coco, doce de mamão em espelhinho, umas delícias que nunca se acabavam, ao contrário, miraculosamente se renovavam. Doce de leite pastoso, goiabada em gomos, compota caprichosamente colocada em cristais, geléia de mocotó, ruim, ruim, ruim...
Cozinha pequena para tanta gente, sem mistérios, onde pouco entrei, e pouco observei – exalava a nata de leite gorduroso que ficava sobre o fogão a lenha, e a multidão de panelas e tachos, cores e tamanhos variados, barro, cobre, latão, cada um com seu destino de ter sido separado para ser do doce de figo, do frango, do sabão.

O quintal era fedidíssimo, em bizarro contraste com a casa, muito responsabilizado por uns poucos patos e galinhas que habitavam ali, fazendo não sei o que, visto que nunca vi que morriam ou se sacrificavam por refeição alguma. Ficavam confinados a um pequeno galinheiro de arame, com potes e potes de água verde, repletos de penas e grãos de milho desperdiçados. Não passavam de uma cerca baixa, mal pintada e rústica, porém, na minha memória, soltíssimos, quase chegando ao quarto onde dormíamos.

Vovó era uma mulher de métodos. Com ela não havia improvisação – nada de colchões no chão, acampamentos feitos à última hora para os que chegassem sem aviso.
Os quartos da frente eram sempre reservados aos netos que vinham de longe; não havia indagações sobre onde dormiríamos, Era sempre lá, no cômodo pequeno da frente, com duas camas noviças, sem rococó ou traço ínfimo de feminilidade – camas de dormir, encostadas em cada lado da parede, separadas por um tapete de retalhos do artesanato próprio da casa – meu Deus, quem se ocupava com aquilo ?

Os cheiros da minha infância são notadamente marcados pelo odor da roupa de cama da casa de minha avó. Hoje, adulta, com uma pequena experiência em alquimias de cozinha e tanque, chego a pensar que vovó caprichosamente temperava as essências de sua casa para que fossem eternamente lembradas e únicas - a roupa de cama, branca, hotelesca, cheirava a sabão de cinza, produzido lá mesmo no quintal, mas que não trazia o cheiro dos patos, mas sim o da lida, o da esfrega, do esforço bruto de manter a ordem e disciplina.
Cada cama escondia um urinol – de ágate branco, quebrados nas pontas – que eu francamente nunca pude compreender. Diariamente eram retirados e recolocados como que por magia, guardiões do meu sono perturbado e vigilante.

Por sobre cada cama, eis que vovó surpreendia. Pendurados, exatos em tamanho, mas em diferentes poses, havia imagens de anjos-criança, com o fim exclusivo de abençoar o sono de quem estivesse abaixo.
Anjos crianças demais, com pouca maturidade e experiência, e o que produziam, na verdade, era um inconfundível pavor ante tão pouca segurança, à medida que as luzes da casa iam se apagando, e vovó, resoluta e fria diante do meu pedido desesperado e pouco convincente por um pouco de luz, ia exercitando em mim a negritude do futuro, e com gestos decididos, escurecia minha visão e aumentava as sombras do meu pânico.
Casa de forte comprometimento católico, exalando básicos odores de velas do cristianismo através de crucifixos e santos muito simples, meu sono nunca chegava antes que meus olhos não resistissem mais às longas piscadelas , e à espreita eterna de que os anjos-nenês iriam reclamar do trabalho dobrado de guardar meu sono.
Meu corpo pequeno, magro e sempre frio, parecendo ter sido vindo de alguma era glacial, não deitava, ficava. À simples idéia de me virar um pouco produzia em minha mente a culpa inexplicável e trágica por não apreciar as sombras gigantescas que a parede produzia por um poste que mal iluminava a calçada no lado fora.

Chego a pensar na crueldade com que minha avó atormentava também as crianças-anjo, que não queriam abençoar ninguém, medo terrível de ficar guardando um quarto, sorrisos forçados por sobre crianças eventuais e forasteiras, a observar continuamente as sombras se formando, tendo que suportar o ritual satânico do abandono das luzes e o surgimento das trevas, estendido noite adentro, sem indícios de rebelião.

O relógio da sala de jantar marcava as horas histericamente – bate até hoje bumbado no meu coração. Por volta da meia noite, minha mente trazia os patos lá de fora – lá vinham eles, desajeitados, rebolantes, decididos, porém, atravessando toda a península da casa e invadindo os quartos sem nenhuma explicação.

Porque nunca esquentava ? – Ao contrário, as temperaturas baixas se prontificavam a declinar cada vez que eu me revirava: - faltava um cobertor, havia um cobertor, faltava o abraço de boa noite, não faltaram abraços, faltava o amor, mas amor também estava ali, cumprido e realizado em ações devocionais de culinária e limpeza absoluta através dos passos diligentes.

A casa de minha avó foi magia para meus olhos de pequena.
Pela manhã, depois de uma noite torturante e densa, tão certo como a vida, vovó abria a porta da frente à hora que o sol surgia, negra, paramentada de terço e véu, as chinelas se arrastando, pesadas correntes que me despertavam.

Daí as flores surgiam, os brincos de princesa da minha meninice, a pimenteira vermelha brava plantada junto ao muro caiado, os dias azuis, a liberdade sem freio...
As idas à bica da minha infância, verde água da cor do bambuzal, viçoso e lúdico, a água da mina confinada em cano, jorro de alegria para a alma de criança, espírito aprendiz da liberdade e poesia.
A existência do oleiro logo abaixo, a primeira consciência da forma, da produção do vaso de barro e o meu espanto ante a arte primeira, a simplicidade da arte, o fascínio das horas que não passavam, com todos os bichos soltos na minha imaginação.
A poesia das borboletas alaranjadas, levezas em tontura, simplérrimas, o revoar delas, desordenado na minha memória, a decorar as árvores da minha infância, raízes saltadas para fora da terra, a alma de criança aprendendo com a solidez e a competência da vida.

Um dia parei de ir. Vovó havia se mudado.
A casa passou a ser uma casa de esquina, meio que velha demais para o quarteirão, até que bem mais feia do que antes. Há bem pouco tempo me contaram que virou restaurante – triste fim para o que fora misto de sombras e delírio.
Alma de criança aprendendo a vida, a distinguir as cores, a contrastar o belo e a escuridão, a acreditar que há escuridão entremeada à luz, que há bicas, há oleiros, que ainda há vasos de barro e jorros de alegria vindos da mina em meio a bambuzais de sonho...
As cores da minha infância, os matizes dos meus poucos anos, os devaneios que se cumpriram, todos eles estão vivíssimos dentro do peito desta mulher que ainda sonha, desta mulher madura.
A casa dos cheiros também.

4 comments:

Fernando Serapião said...

querida prima
muito legal seu blog,
parabens e continue com seus escritos.
em especial, foi muito bom ler este da casa da vovó.
pra ser sincero fui lendo ansioso pra ver se falaria um pouco de nós, rss.
no dia que escrever um pouco sobre nossa infância em comum, não se esqueça de me contar.
um grande bj pra vcs todos e saibam que continuo amando vocês.

Anonymous said...

Ci, esta me fez voltar no tempo. Onde estava eu, a mais velha, aquela que cuidava dos pequenos?
Eu estava, limpando urinóis e limpando a casa.Quase invisível, porque ninguém notava a magricela atuando com a Benedita.
E tratando de terminar logo o seviço, para podermos brincar na rua, na sargeta, na bica, ou fazer fantasias de indio com as folhas enormes da seringueira da praça.

Zazá said...

Desculpe os erros de linguagem.Escrevi afoita demais.
Sueus poemas entram todos os dias bem cedo na no meu cotidiano e passo todo o dia pensando em algum que me marcou mais.
Que privilégio, desta irmã!
Que fonte de prazer eu descobri.Suas poesias e histórias circulam pelo fato de estar sempre enviando p/alguem que se encaixa no texto.

Zazá Lee said...

Uffa!
Custei a encontrar!