30 May 2007

AOS AUSENTES E INSENSÍVEIS


Que me julguem os ausentes e os insensíveis
Mas hoje, deixei cortarem-me os cabelos
Os que não me viram, os ausentes,
Não emudeceram, como eu,
Quando os fios cortados caíram
Pelo chão, angustiados,
E se juntaram todos, solidários
Pela prancha monótona desta minha vida.
Senti-me despertar de um longo sonho escuro
Depois dos fios aparados
Havia um conformismo austero em mim
Na época que os meus cabelos
Desejavam estar abaixo do meu ombro
E escondiam esse ombro, que já está cansado,
Cansado de dançar a tirolesa
E de enfeitar gaiola vazia de pavão.
Os ausentes e insensíveis nada sabem de mim
Tampouco sei eu
Só sei que tinha os cabelos aventados,
Maliciosos, sem noção
E era bom,
Pelo menos me ajudaram a distrair o tempo
Contando os fios, vagarosamente
Em inglês, “countable, non-countable”
Até perder a conta e começar de novo
Countable, um, non-countable, zero

Os ausentes e insensíveis nada notarão
Nem se surpreenderão com o meu ar mais moço
E mais revigorado,
Quando me encontrarem novamente,
(Se me encontrarem novamente,
Se eu permitir que me encontrem novamente
Depois deste ato sujo e covarde de permanecerem ausentes
De serem insensivelmente, ausentes)
Pode ser que balancem as cabeças
E numa possível indagação
Dispararem, insensivelmente,
"Ceci, para onde foi que você mudou? "

E a você, que rói seus dentes com pouca curiosidade
E deseja saber para onde me mudei;
Estou cá, quietinha e abismada
Dentro da gaiola do pavão.


3 comments:

Zazá said...

Ceci....
este texto tem a ver co o comentário que fiz?
É falta de sensibilidade minha, ou vc realmente cortou seus cabelos?
Será que não entendi a poesia?

PÉ DE PITANGA said...

Cortei, quero dizer, deixei que me cortassem...
Ficou otimo!

Kah said...

Adoreeeei o poema!!
*-*