21 June 2007

POEMA DA TRISTEZA TRISTE


Hoje quero lhe falar,
Mas como dói falar!
Dói-me mais falar e ser ouvida
Do que falar aos ventos e
Receber de volta nada dos ventos
Quero lhe falar, contudo
Das coisas que jamais falaria a qualquer cristão
Ou a qualquer irmão
Ou a qualquer que fosse a condição
De sangue ou de afeto que a gente garimpa
E acha que foi boa a garimpa
Falar-lhe-ei então, que estou triste
Não que a tristeza seja a má insígnia
E que eu deseje seu colo amparando-me a fronte
Ou que segure minha mão
Não,
Estou triste porque estou triste
E o meu travamento de diálogo será só esse
Você me perceberá assim,
Sem o ânimo das roldanas das fossas
Que rangem e sobem,
Rangem e descem
Uma falta de ânimo como a fotografia
Que só tem a estampa,
Porque o espírito já pirulitou-se
Fazendo pose para outras caras
E para outros mundos
Estou triste,
E a minha tristeza não advém de fatos
Nem de pessoas
Nem de idéias
E muito menos de paisagens
A minha tristeza, como falar, hoje
Rouba-me a fala e rouba-me a mente
Rouba-me a própria vida
Porque a tristeza é a tristeza que não tem palpite e prescrição
É a tristeza em si,
Pura, orgânica, filtrada
Estou triste, porque não sei
Mas sei que é uma tristeza assim como eu,
Triste.

1 comment:

Anonymous said...

CECI

Que lindo seu poema...
Tive que me abster da ansiedade que vc tanto conhece, para ler bem devagarinho.
Como se tivesse me alimenmtando de um sabor novo e gostoso.
Eu entrei dentro da poesia .