08 October 2007

POEMA DA ETERNIDADE


Vamos falar besteiras, meu neguinho
Vamos falar de nada
Vamos ficar assim, de mãos dadas
Olhando a escavadeira procurar onde tem chão
Vamos tomar sorvete de ameixa,
Porque se ameixa há
Então para nós, tudo haverá
Haverá em nós um violino por detrás do bambuzal
Que toca um samba ao invés de trote
Que muda a direção do vento de lugar
Vamos fazer besteiras, meu neguinho
Vamos tornar o circunflexo das nossas sobrancelhas
Em linhas suspensas de literatura de cordel
Leves e finas,
Cheias de lirismo do mote que há da vida
Vamos falar engraçado, meu neguinho
Vamos falar enrolado
Porque nossos olhos se entendem
Mesmo quando a nossa fala está desembrulhada
Vamos fazer de conta, neguinho
Que a vida é agora
E que o amanhã é o vidro do tinteiro
A gente sabe que tem em algum lugar,
Mas não existe mais
Vamos, neguinho,
Vamos fazer amor de madrugada
Porque o dia está quente
E é preciso preparar a madrugada
Com seu frescor e seus defeitos
Que só o destino sabe onde não tem
Vamos morrer juntinhos, meu neguinho
Naquele dia em que não houver para nós nenhum presságio
Em que estivermos mortos de tanto viver
De tanto vasculharmos
E só encontrarmos a nós dois, neste oceano insano
Que foi a vida para nós, neguinho
E podermos nos dizer que foi uma vida e tanto
Vamos sonhar juntinhos, meu neguinho
Sonhemos de brincar de presente e de passado
O passado, joguemos fora depois, como se fosse traste
E o presente, neguinho,
Este,
Levemos conosco para a eternidade.


1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Adorei a posragem do neguinho.
Esta imagem em negro significa o que?