03 October 2007

TIA CARMEN


Minha madrinha foi-se para o universo dela há pouco tempo
Não foi uma madrinha de porta a porta

Não me carregou no colo,
Se me cantara canções de ninar, eu também não soube
Duas mulheres, entretanto

Cada uma na sua perplexidade
As minhas insatisfações de mulher

As minhas dúvidas de acerto e erro
Os beijos forçados que dei
E aqueles que eu quis dar, escancarados
Teria ela dado e também escancarado suas insatisfações?
Uma vez vi minha madrinha tomando banho
A pele tão clara, os cabelos curtos e grisalhos,

Mesmo nua, o que mostrava,
Era a cara amarrotada de tanta vida presa
Os caminhos exíguos da rota certa de todo dia
Os calçados baixos, rasos, a poeira nos pés,
Os brincos minúsculos de ouro português,
Feios, de tão avermelhados

A fala que se queixava, também avermelhada de estreiteza
Quando tomo banho,
Invoco-lhe a imagem
Cadê os brincos, madrinha
Cadê a blusa de flanela?
Cadê o curto do seu cabelo que não vingou em mim?
Mulheres, entretanto,
Ela, na obscuridade
Eu, na paz do luto que esquece
E ainda nos perdoamos,
E nos compreendemos

Por dentro de nossas ausências.


1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Ceci...

Ficou bacana mesmo.

Espero que ela esteja "lendo " o que vc escreveu e dê boas risadas agora que não está no mundo dos vivos.

Vc conseguiu com MAESTRIA descreve-la. Em tudo.

Eu tinha muita afinidade com ela, no que diz respeito aos cuidados com a casa, a cozinha etc...

Lembra-se que eu andava atrás dela?

Ajudava a fazer faxina e ia sempre na casa dos pais do Tio João...
Não me lembro os nomes.

Mas lembro-me que a casa deles tinha um cheiro estranho de comida.