25 December 2007

POEMA PARA DEPOIS DO NATAL


Depois do Natal, haveremos de refletir sobre tudo
O quanto nos faltou a amizade
E o quanto nos faltou do amor ganha-ganha que buscávamos
Falamos tanto de amor,
E eu não compreendi o amor
Falamos tanto de emprestar nossos sapatos,
Doar nossos sapatos
E eu não consegui sequer mover os meus sapatos em direção ao outro
Ignoro muitas vezes a minha intolerância
(Jamais saberia adotar uma atitude tão franca comigo mesma
se não fôra em verso)
Dôo-me todos os dias à minha poesia e à meia duzia de projetos que acalento como se lhes fosse a mãe
Tenho crises de histeria se não me adulo em graça
E no entanto, enquanto os gandhis de gravata me falavam
Enquanto de Calcutá me falavam as terezinhas, preocupadas,
Enquanto os martins luther king da vizinhança me cansaram
Abri uma garrafa espiritualizada de Martini seco,
Coloquei duas pedras de gelo imorais dentro do copo baixo
E bebi à saúde de todos os povos neste Natal abafado
Os foguetes espocando, vibrantes, à certa hora,
Eu sorri.
Minha poesia também sorriu;
Minha poesia é tão egoísta e presunçosa...
Sorrimos, ao mesmo tempo
A poesia e eu.




1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Adorei este!
Muito bonito Cecília!