06 January 2008

SUPORTEMOS O VERÃO




Falando de verão
Falaremos dos dias compridos de indolência que se seguirão
Quando não chove de manhã
Chove à tarde
Uma chuva mal vinda,

porque é vinda da improvisação
Não tem nada no céu, e ela surge, negra,
dentro da alquimia
vira uma cortina de branco inundando tudo
Mal bate no asfalto e esvai gostosamente no calor ...
Não sobra gota a contar sobre outra gota...

Verão que combina com o picolé de cereja da esquina
Ruim feito o diabo, enjoativo de tão doce,
feito o amor de verão, atraente,
mas fraco e breve.
Não há torso nú que não goteje em suor
As peles estão lustrosas,
O ar oprimido está abafado
Moscas varejeiras varejam por cima de nós
Surtam de liberdade,
Estão em toda parte, experimentando os suores
Noite e dia são a mesma coisa
Calor das 7 às 7,
Da meia noite à meia noite
Pessoas comentam:
"Que calor!"
Para o calor ficar ainda mais acalorado
(as pessoas bem que podiam se calar diante de tanta barbárie;
um pouco de silêncio nesta agora refrigeraria a alma).
Vista-me com biquinis sumários
E eu emudecerei
Dê-me cocadas brancas à beira da praia
E eu me mudarei daqui ...
Saudade que tenho das tardes de outono,
umedecidas, frágeis,
quase dia, quase noite...
Saudade de ter a manta a meus pés
o cahorro, também no seu silêncio
usufruindo do ar rarefeito e calmo, inspirador
Vontade de pegar um livro que seja bom
tomar chocolate quente depois da janta,
e depois ir espiar lá fora,
o vento cortante que irá substituir o dia mais ameno
Saudade que tenho de mim quando a natureza não fervilha,
mas que se aquieta
e os nossos corpos agora, brancos, arrepiados,
de outono,
descansarão à beira da varanda...
Contaremos nossos casos
diremos uns para os outros que já está fazendo frio
que o inverno deste ano será rigoroso
esfregaremos nossas mãos, uma entre as outras,
sorriremos,
nos arrepiaremos,
dormiremos bem agarradinhos a um amor
que temos e que merecemos.

Que venha o outono
Suportemos o verão
Façamos do verão uma viagem de volta,
uma viagem
de se esquecer de que se foi.

(O poeta que é poeta, ama o que o isola da multidão;
se quer o verão, fica com o verão
guarda-me o outono,
dê-me o mais perfeito outono
deixam-me com o outono, então)





1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Vou ler com muita calma.
A priori, achei lindo e profundo.
Voltarei.