05 March 2008

MULHER DE COSTAS


Eu sou uma mulher de costas
Eu sou uma mulher que não faz pão
não remenda meias
Meu ofício é me ocupar com a colocação das palavras
e assentar os sentimentos dentre elas
Posso rir, que estarei ainda assim suavizando
a vida que me deram
e se chorar, nada mais restará do que um punhado de palavras
escritas, jogadas para quem as ouça
Nunca serei como as outras mulheres
e eu lamento profundamente esse acontecimento
O que mais desejaria agora
seria poder tratar da trivialidade das coisas que me cercam
com a naturalidade de quem fala alto
e de quem se queixa do amanhã
como se o amanhã fosse esperado e certo
Há em mim, no entanto,
uma angústia de mulher
e uma súplica de mulher
que mulher nenhuma conhece
porque sei que o amanhã é duvidoso
e sei que o hoje é breve
Estou de costas para a a normalidade da mulher
e para a distração
Não quero e não devo,
mas eu me maltrato.


1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Magnífico!
Nada mais a dizer.