17 April 2008

PARA ISABELLA NARDONI


Isabella Nardoni,
Perdão porque eu não estava lá na sua hora,
Acho que eu estava fazendo uma coisa tão desimportante neste dia;
Acho que estava mexendo na geladeira, passando um paninho por sobre os móveis
Talvez estivesse verificando que as orquídeas morreram
E você morreu, longe de mim,
atirada pela janela (que estava protegida, protegida!!!! por fios de nylon)
e eu aqui, fazendo cachinhos nos meus cabelos!

Também não sou uma pessoa carinhosa,
dessas de se deitar no chão para que as crianças passem por cima
(aliás, Isabella, tenho deixado que os adultos me passem por cima)
Mas possuo uma delicadeza de alma que não permite a violência
que não permite o descontrole,
que não permite a transgressão
Nem de grito gosto, Isabella
pensa então,
o que senti ao tentar imaginar o seu vôo precipitado
para a cara do solo?

Tenho chorado todos os dias,
um chorinho de gato, que não se acaba, nem perturba
Mas o meu choro é o choro de quem gerou todas as Isabellas
e de todos os Nicholas, os Marcelos, os Brunos
Os Caios,
aqueles a quem amamos,
não importando se são nossos de fato ou nunca serão

A minha tristeza maior foi aquela de que você morreu
e nao deixaram que vivesse
nem um tiquinho das maravilhas que a vida tem
o primeiro desafio, o primeiro beijo de amor
o amor, o medo de fracassar,
o fracasso e depois a vitória,
que só pode advir do fracasso

Quem lhe interrompeu a vida
também terá a sua vida interrompida
senão pela justiça e as mil perícias daqui
mas pela justiça da consciência que deve doer
mais do que martelada em dedo desprevinido

As suas quenturas, as suas manhinhas de criancinha de leite
os seus soninhos, as suas palavrinhas
todas foram embora enquanto a queda se dava
Mas não vai embora a incrível ternura que passei a ter por você
Pois todo o carinho e proteção que dediquei aos meus próprios filhos,
as noites que perdi, velando e cuidando
me foram muito poucas pelo que não pude fazer para que você não desaparecesse

Talvez esse mundo seja erradíssimo, como eu já desconfiava
As mães deviam ser multi-tarefas;
Cuidar amplamente de quem está perto
Premeditar a tragédia de quem está longe
E a nós todos, salvar-nos, de nós mesmos.

Nunca me perdoarei por não poder segurar a mão de quem bate
e nem poder desviar o louco da sua cegueira
batendo-lhe na face as razões do amor que tudo suporta.
Para nós, que cremos em divindade, estamos mortos de medo
abandonados à nossa condição primitiva de outros tempos

Se você sofreu naquela hora, eu sofri também
e se você se foi,
eu não me fui
e aguardo, com paciência,
que eu possa antever o que está incorreto
e corajosamente, evitá-lo
Um trabalho de Deus,
que na Sua hesitação
eu me proponho a fazer.






3 comments:

Dumuro said...

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ZAZÁ LEE said...

Cecília
SUPERAÇÂO TOTAL. VAI PARA ESPELHO SEM AÇO !
Veja o blog da keila.
Tem poema seu.
O link está no meu!

Anonymous said...

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