07 June 2010

FELICIDADE É POUCA COISA


O homem morava debaixo da marquise do cinema que não funcionava mais na esquina da Tiradentes com a Marquês de Pombal, mas tinha um asseio! De manhã, pouco depois das cinco, o chafariz da praça larga era banheiro e nesta hora, só passarinho é que disputava a água; tão fresco o ar...
Depois tinha a faxina do quarto; os papelões eram limpos só do lado de cima e lá pelas seis e meia, a única coisa que restara era o saquinho do Super +, repleto de vingança; não é porquê não se tem nada que não se possa produzir a gostosura de se ter lixo: dois envelopes amassados, vazios de figurinhas, um pedaço gordo de bacon que há muito estava passado e um bilhete do metrô rasgado pela metade.
Não que ele se sentisse rico, pobre também não era; tinha um céu de noite e um sol de dia, uma barba por fazer a cada dois anos e os pés calçados com as havaianas, cada pé de uma cor.
Felicidade é pouca coisa, um tantinho de nada, uma poerinha que assenta na cabeça da gente já é motivo para mostrar as gengivas segurando os dentes.
Nessa hora, ter coração que sente é puro delírio de um contentamento são, gratuito e grato.




1 comment:

G. said...

Texto maravilhoso, atitude admirável do personagem decantado... Parabéns, obrigado e um forte abraço!