11 October 2010

THE LONG AND WINDING ROAD





Para mim, a canção mais tocante dos Beatles em nada lembra  a ingênua  Yellow Submarine. Falo da lindíssima  The Long and Winding Road,  escrita por Paul McCartney e creditada também a John Lennon.  Além de apresentar uma letra madura, forte, inquietante,  possui uma incrível sonoridade crescente, começando em um tom mais baixo enquanto vai ganhando corpo  ao falar de umas coisas assim: "A estrada  sinuosa e longa  que me leva à sua porta jamais desapareceu, pois já vi esta estrada antes... ela sempre me traz até aqui, até a sua porta...."

Inventamos a porta quando resolvemos fechar o coração. Os animais silvestres também o fazem, embora não erijam portas físicas, mas entocando-se, fugindo do predador.Nós, seres humanos, possuímos infinitos predadores e até de amigos escapamos!
Mas o que me comove nesta canção dos Beatles é a  figura de uma estrada longa e sinuosa que leva à porta de alguém, e nesta imagem  esse alguém nem sempre disposto a abrir sua porta para  receber ali a nossa presença, dando-nos a proteção e o calor da alegria e da amizade. Uma estrada que conduz a uma porta, a canção diz isso, que para cada um de nós deve haver uma porta no final de uma estrada, mas a canção não ilustra esta porta aberta, apenas sugere  que ela deva ser aberta com alegria  no momento da nossa chegada...

Arthur Miller disse em "A morte do caixeiro viajante" -" O mundo é uma ostra,  mas não se quebra uma ostra com punho de renda" - ou seja, para ele, o mundo é oclusivo e duro;  para conquistá-lo, só com a violência dura, estúpida. Mais uma vez, os animais silvestres( me ocorre a semelhança dos animais silvestres com a nossa falta de amizade); como eles, também nos escondemos atrás de portas em busca de proteção contra as intempéries que inclui o predador.

A noite selvagem e tempestuosa  que a chuva lavou deixou uma poça de lágrimas chorando pelo dia... Porque me deixar parado aqui? Mostre-me o caminho!
Estive sozinho muitas vezes, chorei muitas vezes, de qualquer forma, você nunca saberá os caminhos que tentei, mas ainda me levam de volta à estrada sinuosa e longa... Você me deixou parado aqui muito tempo atrás... não me deixe esperando, leve-me até a sua porta...

Nunca como antes essa súplica da canção me comoveu tanto quanto me comove nesta noite fria; hoje venta como o diabo e o frio está passando por cima do telhado.  Preciso hoje que alguém me abra uma porta, penso que tenho a estrada mas não vejo porta nem entrada. Precisaria remover de mim a necessidade para também abrir a minha porta que me traria a condução de alguém, mas este alguém nesta noite, enviesou-se para outro lado, para outras portas, para outras estradas que nem sei...

A canção não fala de muitas estradas; fala de uma apenas, "sua porta" . Hoje falo  da ausência desta porta, desta estrada e só me fica essa linda canção sugerindo companhia, aconchego, abrigo...
The Long and Winding Road ainda é a canção que me faz pensar na humanidade. Temos tudo, mas na verdade, não temos quase nada, e o do pouco que temos, portas fechadas.



4 comments:

zazá lee said...

Que lindo isto!
Como vc é CHIC!
Bjs

Cristina Soares said...

Perfeito! Dispensa comentários...!
Bjs

Anonymous said...

Perfect!
I love me!

Anonymous said...

Que interessante,eu não sabia disto.
Não sei muito, mas gosto.