21 April 2007

PREGUIÇA, PAPAIA E BAHIA


Tem muito tempo que tenho preguiça, pecado, senão mortal, pecado de qualquer maneira.
A preguiça nunca deveria ser confessada publicamente, mas não tive ainda o menor pudor de confessá-la, já que a confesso no meu íntimo todos os dias. Adoro ter preguiça e sempre adorarei; este é um dos meus defeitos mais exaltados e cultivados que trago em mim; se defeito todo mundo tem, a preguiça é um dos mais saudáveis, na minha opinião. Se não prejudica ninguém, pelo menos inspira os apressadinhos a tirar o pé do acelerador. E como é bom descansar!
Minha avó Mariquinhas era a representação do movimento; já velhinha, ainda estava atrás dos outros, na cozinha, verificando almoço, janta, lanche, roupa de cama. Na minha familia há muita gente assim. Minha irmã Azália também vive num afã de começar uma coisa e terminar outra, as mãos sempre ocupadas com os objetos, trocando-os toda hora de lugar, ajeitando aqui e ali, os olhos no vão das coisas.
Tenho outra irmã assim também, Suzana, cavalo no horóscopo chinês, cuja lema é "trabalho". Se não está trabalhando, está limpando a casa ou passando roupa, o soninho da tarde no final de semana é o sono dos justos; só depois de tudo arrumado. Meu irmão Júnior é a força motriz dele mesmo, levanta cedo, trabalha como um zumbi não questionando nada, nos fins de semana, abre o "briefing" e toma lava moto, lava carro, supermercado, despachante.
Tive uma tia assim também, tia Madalena, sossegada, tão boa, a tia Madalena, cujo mote da casa era de dar saracutico em santo. Comidinha lá não virava, era ceia todo dia. Pernil sobre a mesa, da hora do almoço até a janta, pão de queijo saindo do forno, bolo de fubá, e tudo com a quela calma de quem reza terço. Nem bem sentava, levantava-se, girando assim feito mariposa em cima da gente.
Minha mãe também foi uma mulher diligente, se ela se deitava um pouco, era para depois recomeçar a lida com os filhos, cada um numa idade e exigindo tudo. Não reclamava de nada, só ia fazendo, fazendo, até a hora da gente se deitar. Como eu admirava minha mãe!

Acho que sou o avesso da familia e a ovelha, senão negra, bem rebeldinha da matilha. A pressa dos outros ainda me assusta, a correria mata-me. Vivo no meu ritmo e tentar dançar a dança dos outros me faz um aviltamento que não me permite querer prolongar a vida.
Já de manhã me levanto com preguiça de tomar café, fazer o café é ritual então que tento fazer de olhos ainda fechados que é prá não sentir o peso da obrigação.
Hoje de manhã foi assim, abri um dos meus olhos bem miudinhos, e vi que por sobre a geladeira, na fruteira, tinha um mamão papaia no ponto de maduro; era comer hoje ou não ia prestar mais. Pensei por um segundo.
E a preguiça de abrir a gaveta, pegar uma faca, cortar o bicho ao meio, tirar as sementes, colocar num prato, e deliciosamente sorver a polpa da papaia?

Sossegue, meu amigo, fiz tudo isso como um dever de monge, e agora, fiquei feliz. O gosto macio do mamão, doce como a minha infância, o cheiro bom da fruta recém cortada, a possibilidade de se comer uma pasta alaranjada e mole que nos espera, paciente e a sofreguidão de ter-se comido finalmente a doçura dos melados que não contêm o artificial, tudo isso valeu a pena. A minha preguiça hoje não me venceu, e quando é assim, congratulo-me comigo mesma. Venci uma barreira, e foi divinamente conquistada.

Acho que poetas são preguiçosos mesmo, e ainda acho que vim nascer no lugar errado. Eu deveria ter nascido na Bahia, e a esta hora já devia estar debaixo do coqueiro, falando assim para o primeiro bobinho que estivesse perto de mim: " - Oh, meu rei, pega aquele côco ali, que se ninguém pegar ele não vem sozinho aqui..."
Poeta e Bahia são coisas inseparáveis. Devia ser proibido na poesia nascer e crescer num lugar tão ritmado como o estado de São Paulo.
Quanto mais vivo mais descubro que a melhor coisa para um poeta é ficar paradinho, olhando o nada, sentindo a brisa passar, o dia passar, o ano passar, a vida passar, e a gente, só poetando por dentro, e ficar imaginando como seria doce comer a outra metade da papaia, que está lá a minha espera. Mas vou deixar prá outro dia, já aprendi que papaias podem esperar.

1 comment:

Zazá said...

CECI

VC É PARENTE DO DORIVAL?

AQUELE DA BAHIA ?


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