19 September 2007

RETRATO


Hoje vi uma rua poeirenta e suja
Uma rua de periferia,
Abrasileiradamente desleixada
Lembrei-me do seu retrato
Que estava amarfanhado em meio às notas da minha carteira
A rua não estava sozinha
Era um apinhamento de gente,
Pernas coloridas de bronzes de nascença
Uma festa animalesca de camisetas vermelhas
Crianças chupando picolé e as velhas na calçada,
O pó acobreado ardendo os olhos
O calor, o calor,
E a rua, plena
Seu retrato é o único sinal de vida que carrego
Na imagem única, seu sorriso enfadonho e cru
Nada restara daquele sorriso in loco que eu guardara
As cores do retrato explodiram seu afeto
Meu afeto esvanece-se e derrete-se na calçada
É só um retrato, desapinhado,
É só um momento do passado,
Um risco fotografado,
Você não ficou em mim
Eu nunca lhe fiz morada
Passei, passamos,
Enquanto a rua passa.



1 comment:

ZAZÁ LEE said...

Eu já tinha lido este poema MARAVILHOSO, mas não tive oportunidade de comentar.

Faço-o agora. Como já disse nada mais lindo que fazer do cotidiiano, uma brisa; seja de leve ou daquelas de desmanchar o cabelo!