17 March 2011

A FESTA DA POESIA




Ontem, um dia após o Dia da Poesia, uma escola pública de Ribeirão Preto homenageou-me. Isto faz parte de um projeto sensacional liderado pela admirável Maris, da Casa do Poeta de Ribeirão Preto e que trabalha na Biblioteca de uma escola pública de nossa cidade,  fazendo um trabalho de leitura com mais de mil alunos, do ensino fundamental ao ensino  médio. Os alunos mais afeitos à literatura haviam lido meus livros sob a sugestão e supervisão da Maris e  Érica, e se prepararam para a minha visita na data programada.

Achei no momento do convite que nem tudo estava perdido. Vieram me buscar em casa. Ponto para a escola! A diretora me recebeu na porta. Dois pontos para a escola!. Quando entrei, fui vendo vários de meus poemas espalhados pelas paredes dos corredores em forma de painéis, muito bem feitos, em cartolinas coloridas. No mural do centro da escola, bem à frente, vi meu nome recortado em letras azuis (?) garrafais "CECÍLIA FIGUEIREDO" e alguns dos poemas mais esquecidos por mim dispostos lateralmente. Neste momento, precisei abaixar para recolocar meu queixo que havia caído.  Ponto para quem fez isso! Bem, fiquei sabendo depois  que são os alunos quem confeccionam esses painéis. Quantos pontos deverei dar aqui? Uma linha tracejada de pontos para cada um, no mínimo!

Mas o melhor estava por vir. Os alunos selecionados, 15 ou 16 anos,  cerca de cem, estavam todos sentadinhos numa  sala arejada, quietinhos, como uma pintura de Portinari.  O cenário era propício: mesa com toalha branca, flores, as cadeiras dispostas em hieraquia bem à frente. A diretora fez uma pequena preleção sobre a importância da literatura e me convidou a entrar (sob aplausos!) Ponto para todo mundo! A queridíssima Maris tomou da palavra e deu nomes aos bois. Falou do sentimento que a poesia dá na gente, que chega a doer. Meu peito doeu também, pensei que eu tivesse morrido e que aquele momento fosse a encomenda para a saída do féretro. Ia esquecendo de dizer que no momento da minha entrada, pude perceber que muitos deles estavam segurando pastinhas de capa verde musgo,  que logo depois, descobri para que serviam. Os alunos vinham à frente, cada um por sua vez, (alguns vieram de dois  em dois), e liam  meus poemas, interpretando-os, cada um a seu gosto, que  por acaso ou coinciência, era o meu gosto também.
Alguns estavam mais nervosos, meus nervos também tremeram pelo nervosismo deles, e você sabe, nervo quando é genuíno, contagia.

Meus poemas na boca dos adolescentes foram música para meus ouvidos:  muito mais rock and roll do que a balada triste sob a qual  foram gerados, mais confeitos do que as pedras pesadas, mais azuis do que o branco sem graça das palavras. Liam enfaticamente algumas passagens, sussuravam os finais, como que fazendo uma  poesia nova, só deles, mais branda e mais simpática do que as originais.
Depois a Maris abriu a sessão de perguntas: fizeram todas, mas nenhuma sobre a minha vidinha pacata. Não me perguntaram por quem me apaixonei nesta vida, quantos anos venho carregando nestes lombos, se tomo banho as dez ou se uso calcinhas da cor das meias. Perguntaram-me, circunspectos, sobre a minha poesia, e incrivelmente, respondi a todas, mesmo com a emoção entrando e saindo pelas minha narinas. Ponto para as perguntas inteligentes das pessoinhas inteligentes da E.E. DIVA TARLÁ DE CARVALHO, orientadas pelo nobilíssimo trabalho de Maris e Érica e notoriamente abençoado pela diretora Marta e suas coordenadoras!
Claro que levei meu violão a pedido da poetisa Maris, e cantamos duas canções em uníssono. Ponto para a música e para a animação contida e obediente da garotada! Ainda preciso contar que lá havia duas garotas estrangeiras realizando uma espécie de intercâmbio cultural: uma de Portugal,  aquele sotaque lindo de torcer os ésses e rebolar os érres, e uma argentina dulcíssima que me falou de Buenos Aires. Ponto para a importação dos sotaques!

Depois das fotos, flores, presente, autógrafos, abraços, uma menininha graciosa chegou-se a mim, e reservadamente, disse, embaraçada: "Me identifiquei com você, também quero ser escritora!" Ponto para mim, que pude despertar em alguém aquilo que mais acreditei e que para mim, nunca passa!

Difícil descrever aqui a sensação de ter vivido uma experiência onde um poeta é visto por alunos do ensino médio de uma escola pública como um tesouro que necessita ser preservado. Penso que esta escola no bairro Ribeirão Verde deva ter tido inspiração de algum país super-hiper-casper desenvolvido da Europa e que por engano de algum lobista, foi fincada nesta cidade.  Na próxima vez que eu for a Casa do Poeta, vou perguntar isto a Maris. Desconfiei que os professores ali ganhavam em dólares e que o intervalo dos alunos deveria ser de enlevo na contemplação das  poesias que enfeitam as salas...

Viva, viva! Viva este Brazilzinho que ontem conheci,  extraordinário e escondido de Ribeirão Preto, e que através desta gente incrível, educa bem, valoriza os escritores da terra e finalmente  motiva-nos a seguir em frente.
Ponto para aqueles, que com dia marcado, nos abraçam, e que ao invés de nos mostrar a nossa própria poesia, justamente eles, elevam a poesia ao posto de almirante e tornam-se os poetas da hora.
Portanto, ponto para estes poetas que não se sabem poetas, mas que poesia fazem.
Porque não se engane,  a poesia não passa disso: primeiro o gosto pela palavra, depois a palavra que dá o gosto e a entonação que o coração dispara.
Ah, ia me esquecendo: no finalzinho, apareceu uma garrafa de Coca Cola em cima da mesa de toalha branca e algumas  bolachas macias. Dia de festa!
Ponto para a festa da poesia!

8 comments:

zazá lee said...

Ci
QUE LINDO ISTO. Até chorei.
Pàrabéns querida irmã.
Você fez por merecer tão emocionante homenagem.

Pedro Figueiredo said...

Querida irmã
Sempre tive orgulho de você. O seu dom de agregar pessoas e encantá-las com seu carisma é muito especial.
Suas palavras mostram de uma maneira diferente, tudo aquilo que gostaríamos de ouvir. Parabéns! Você merece.

Sotnas said...

Olá Cecília, que esteja contigo tudo muito bem!
Que texto emocionante, me fez molhar o teclado, não sei como resistiu tanto, gostaria de ser tão resistente, a primeira vez que fui premiado em um concurso de poesia, foi só começar a ler o meu poema as palavras falhavam, a minha voz quase não era audível, tal foi minha emoção no momento, em situação como esta vivida por ti, me é difícil até imaginar!
No entanto, creio que fizeram justa homenagem a você poetisa, pelo que conheço de ti (virtualmente) é sem dúvida merecedora de todos os elogios, felicitações e homenagens, e de estudantes cultos e educados, raridade nos dias de hoje!
Parabéns pela homenagem e elogios recebidos, sinceramente. Desejo a você e todos ao redor felicidades sempre, obrigado pelo carinho de suas visitas e comentários, abraços e até mais!

Profª Ana Lúcia Porto austino said...

Olá escritora e já amiga, Cecília!
Pessoas como você têm o dom de envolver e transformar pequenos momentos em poesia. Se as minhas palavras pudessem expressar toda a emoção que senti ao ler o seu texto somaríamos mais alguns pontos. Fiquei maravilhada com a sua presença e os nossos alunos também. Thanks!

Profª Ana Lúcia Porto austino said...

Olá escritora e já amiga, Cecília!
Pessoas como você têm o dom de envolver e transformar pequenos momentos em poesia. Se as minhas palavras pudessem expressar toda a emoção que senti ao ler o seu texto somaríamos mais alguns pontos. Fiquei maravilhada com a sua presença e os nossos alunos também. Thanks!

franciele said...

Olá Cecília eu sou a aluna Franciele da escola E.E.DIVA TARLÁ DE CARVALHO e estive no dia em que vc nos visitou,gostei muito da sua prasença em nosso meio e espero te ver novamente ainda este ano,pois estou no terceiro ano do ensino medio e não poderiamos terminar o ano sem ter a sua presença novamente conosco.FRANCIELE OLIVEIRA do 3ano B.Tenha um otimo dia beijos.

franciele said...

Olá Cecília eu sou a aluna Franciele da escola E.E.DIVA TARLÁ DE CARVALHO e estive no dia em que vc nos visitou,gostei muito da sua prasença em nosso meio e espero te ver novamente ainda este ano,pois estou no terceiro ano do ensino medio e não poderiamos terminar o ano sem ter a sua presença novamente conosco.FRANCIELE OLIVEIRA do 3ano B.Tenha um otimo dia beijos.

PÉ DE PITANGA said...

Querida Franciele,
Sua mensagem me tocou e para sempre me lembrarei daquele dia. Foi muito lindo e emocionante. Vocês estão de PARABÉNS. Gostaria muito de voltar, basta a Maris me chamar que estarei aí para lhe dar um grande abraço.
Beijos e beijos